Ansiedade, depressão e exaustão: por que a saúde mental das mulheres virou alerta para a ciência

Estudos apontam maior incidência de ansiedade e depressão entre mulheres e destacam influência de fatores sociais, biológicos e culturais ao longo da vida

- Imagem ilustrada e gerada por IA.

No Mês da Mulher, estudos mostram maior prevalência de transtornos mentais entre mulheres e apontam fatores sociais, biológicos e culturais que ajudam a explicar o fenômeno

O avanço das discussões sobre saúde mental nos últimos anos trouxe à tona um dado que vem chamando cada vez mais a atenção de pesquisadores e profissionais da área, de que as mulheres apresentam maior incidência de diversos transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão. A diferença aparece de forma consistente em estudos realizados em diferentes países, o que tem levado a comunidade científica a olhar atentamente para a saúde mental sob uma perspectiva de gênero.

No contexto do Dia Internacional da Mulher, que foi celebrado em 8 de março, esse recorte ganha relevância não apenas como pauta social, mas como questão de saúde pública. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 14,7% das mulheres brasileiras relatam diagnóstico de depressão, quase três vezes mais do que entre os homens, cuja taxa é de 5,1%.

A Organização Mundial da Saúde também aponta que a depressão é aproximadamente duas vezes mais frequente entre mulheres do que entre homens em todo o mundo.

Para Aline Sena da Costa Menezes, psiquiatra da unidade de Brasília da ViV Saúde Mental e Emocional, essa diferença não pode ser explicada por um único fator. Aspectos biológicos, experiências de vida e desigualdades estruturais se combinam ao longo do tempo e influenciam diretamente o bem-estar emocional feminino.

“Hoje a ciência já reconhece que a saúde mental precisa ser analisada considerando os contextos sociais em que as pessoas vivem. No caso das mulheres, existem fatores específicos que aumentam a vulnerabilidade ao sofrimento psíquico e que precisam ser considerados tanto na prevenção quanto no tratamento”, explica a especialista.

Sobrecarga invisível e impacto emocional

Entre os elementos mais discutidos pela literatura científica está a chamada sobrecarga mental associada à multiplicidade de papéis desempenhados pelas mulheres. Mesmo com avanços nas últimas décadas, elas continuam sendo, em grande parte, responsáveis pela organização da rotina doméstica e pelo cuidado com filhos, familiares e outras demandas emocionais da família, além de manterem suas trajetórias profissionais.

Um levantamento da organização Think Olga sobre saúde mental feminina no Brasil identificou que quase metade das mulheres entrevistadas relatou já ter recebido diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro transtorno mental. A pesquisa também aponta níveis elevados de exaustão emocional associados à sobreposição de responsabilidades e à pressão social constante.

Segundo a Dra. Aline, essa carga muitas vezes não é percebida como trabalho, mas produz efeitos reais no equilíbrio emocional. “Existe um componente de trabalho invisível que envolve planejamento, organização e gestão emocional do cotidiano familiar. Essa carga mental contínua pode contribuir para quadros de estresse crônico, ansiedade e esgotamento”, alerta.

Diferenças biológicas também entram na equação

Além das questões sociais, fatores biológicos também ajudam a explicar por que determinados transtornos são mais frequentes entre mulheres. Oscilações hormonais ao longo da vida reprodutiva podem influenciar o humor e a resposta ao estresse, especialmente em fases como período pré-menstrual, gestação, pós-parto e menopausa.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, entre 10% e 15% das mulheres em países industrializados e até 40% em países em desenvolvimento apresentam depressão durante a gravidez ou no período pós-parto, um dado que reforça a necessidade de acompanhamento especializado nesses momentos.

“Essas mudanças hormonais não significam que o sofrimento psíquico seja inevitável, mas indicam períodos em que o organismo pode se tornar mais sensível a fatores externos e emocionais. Por isso, o cuidado com a saúde mental da mulher precisa considerar essas fases específicas da vida”, explica a psiquiatra.

Violência e desigualdade também impactam o bem-estar

Outro fator relevante apontado por pesquisas é a relação entre violência de gênero e saúde mental. Estudos nacionais mostram que experiências como violência doméstica, assédio e desigualdades estruturais estão associadas ao aumento do risco de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

Para a especialista da ViV, reconhecer essas múltiplas camadas é essencial para ampliar a eficácia das estratégias de cuidado.

“Quando falamos de saúde mental feminina, estamos falando de uma realidade atravessada por fatores sociais, culturais e biológicos. Entender essas dimensões ajuda a desenvolver abordagens terapêuticas mais adequadas e políticas de prevenção mais eficazes”, destaca.

Por que falar sobre isso agora?

A especialista aposta no Mês da Mulher como um momento oportuno para ampliar o debate público sobre o tema e reforçar a importância de olhar para a saúde mental feminina de forma estruturada. Ainda que o assunto tenha ganhado visibilidade nos últimos anos, o estigma associado aos transtornos mentais continua sendo um obstáculo para que muitas mulheres busquem ajuda.

“Falar sobre saúde mental das mulheres é também uma forma de promover informação e prevenção”, afirma a psiquiatra e completa: “Quando reconhecemos os fatores que influenciam esse cenário, abrimos espaço para que mais mulheres identifiquem sinais de sofrimento, procurem apoio e encontrem caminhos para cuidar da própria saúde emocional.”

Sobre a ViV Saúde Mental e Emocional

A ViV Saúde Mental e Emocional é o maior grupo de saúde mental do Brasil e oferece tratamento da baixa à alta complexidade, com cuidados personalizados e o propósito de melhorar a qualidade de vida de seus pacientes.

Presente em seis estados do País e no Distrito Federal (Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e São Paulo), com treze instituições e mais de trinta unidades de atendimento com credenciamento de diversos convênios de saúde, a missão da ViV é elevar a vida ao seu melhor e integrar os lados físico, mental e social de cada paciente, com uma abordagem baseada no equilíbrio entre o científico e a sensibilidade humana.

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