
A alta performance deixou de ser um ideal aspiracional para se tornar uma estratégia de sobrevivência. No mercado atual, as organizações não promovem o esforço pelo esforço; elas promovem o impacto. Em ambientes marcados pela volatilidade e rapidez, o profissional que entrega resultados consistentes e resolve problemas complexos deixa de ser visto como custo para se tornar um ativo estratégico.
No entanto, há um erro de lógica que tem comprometido talentos promissores: a crença de que desempenho é fruto direto de intensidade e volume. No esporte, essa insistência tem nome: overtraining. O resultado é previsível: queda de rendimento e colapso. No mundo corporativo, o fenômeno é similar, mas com um agravante cultural: a romantização do cansaço.
O Custo da Desatenção
Dados da Gallup apontam que o baixo engajamento e a produtividade reduzida custam cerca de US$ 8,9 trilhões à economia global — o equivalente a 9% do PIB mundial. Além disso, a Associação Americana de Psicologia (APA) indica que 77% dos trabalhadores sofrem com estresse relacionado ao trabalho.
O risco real não reside em trabalhar 14 horas em um dia de crise, mas em transformar a exceção em rotina. Pesquisas organizacionais reforçam que a jornada excessiva traz retornos decrescentes: mais horas não significam mais produção, mas sim um aumento exponencial de erros e queda na qualidade.
A Mentalidade do Atleta Corporativo
Emerge, então, o conceito de “atleta corporativo”. Não se trata apenas do profissional que pratica esportes, mas daquele que compreende a carreira como uma prova de resistência de longo prazo. O desempenho sustentável depende de quatro pilares frequentemente negligenciados:
- Gestão de energia: entender que a carga exige recuperação.
- Clareza mental: foco para decidir sob pressão.
- Estabilidade emocional: resiliência diante da ambiguidade.
- Propósito: o motor da consistência.
O burnout, classificado pela OMS como fenômeno ocupacional, não deve ser lido como uma “fraqueza individual”. É, antes, uma falha estrutural na gestão de carga e na ausência sistemática de ciclos de recuperação. O estresse, isoladamente, não é o vilão; o dano reside no desgaste crônico sem intervalos para adaptação.
Performance como Alavanca de Liberdade
Um ponto raramente discutido é que a alta performance, quando bem executada, gera autonomia. O profissional que entrega valor mensurável conquista maior poder de negociação, mobilidade e acesso a oportunidades. A baixa performance restringe escolhas; a excelência as amplia.
O novo modelo de sucesso descarta o estigma de ser “o mais ocupado” da sala. O objetivo contemporâneo é a sustentabilidade operacional. No fim, a verdadeira métrica de sucesso não é apenas alcançar resultados extraordinários, mas ser capaz de sustentá-los com saúde e longevidade. O desafio é performar em alto nível sem se quebrar no processo.
Cesar Cotait Kara José é Head Global de Financial Services da Exadel e autor dos livros “Atleta Corporativo” e “Pilares do Sucesso”.
Por Cesar Cotait Kara José
