
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas gerou debates sobre possíveis impactos no sistema financeiro brasileiro. Além disso, muitas dúvidas surgiram sobre o futuro do Pix, principal meio de pagamento utilizado no país.
Apesar das especulações, especialistas afirmam que não existe ameaça direta ao funcionamento da ferramenta criada pelo Banco Central.
Segundo o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (Ibef-ES), Felipe Storch, o Pix segue totalmente sob jurisdição brasileira. Portanto, decisões adotadas pelo governo norte-americano não alteram automaticamente a operação do sistema.
“Não há efeito direto esperado sobre o funcionamento do Pix. O sistema é operado pelo Banco Central dentro da jurisdição brasileira”, afirmou.
Fiscalização pode aumentar
De acordo com Storch, o principal efeito da classificação das facções como organizações terroristas deve ocorrer no fortalecimento da cooperação internacional contra lavagem de dinheiro e movimentações financeiras ligadas ao crime organizado.
Além disso, bancos e instituições financeiras podem ampliar os mecanismos de monitoramento de transações suspeitas.
Segundo o economista, os ajustes devem atingir apenas operações consideradas de maior risco. Assim, o usuário comum não deve perceber mudanças relevantes no uso diário do Pix.
“Os ajustes tendem a ficar concentrados em operações que apresentem indícios de irregularidades”, explicou.
Sanções contra o Pix são consideradas improváveis
A possibilidade de os Estados Unidos aplicarem sanções diretamente contra o Pix é considerada remota por especialistas do setor financeiro.
Felipe Storch destaca que medidas desse tipo normalmente são direcionadas a pessoas, empresas ou organizações investigadas, e não a sistemas nacionais de pagamento.
“Seria extremamente incomum direcionar sanções contra um sistema de pagamentos de um país aliado e integrado ao sistema financeiro internacional”, destacou.
Além disso, ele reforça que eventuais cobranças internacionais devem focar em mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo e monitoramento de operações suspeitas.
Pix já facilita rastreamento de operações
Outro ponto destacado pelo economista é que o próprio Pix já possui ferramentas que facilitam o rastreamento de movimentações financeiras.
Diferentemente do dinheiro em espécie, todas as operações realizadas pelo sistema deixam registros eletrônicos completos. Com isso, autoridades conseguem acompanhar transferências suspeitas com mais facilidade.
“O Pix oferece elevada rastreabilidade. Em muitos casos, ele pode até facilitar investigações quando comparado ao uso de dinheiro em espécie”, afirmou Storch.
Segundo ele, o debate atual não envolve falhas no sistema, mas sim o aperfeiçoamento contínuo das ferramentas de controle e fiscalização.
Debate também envolve diplomacia
Nos últimos dias, parte da discussão também passou pela infraestrutura tecnológica utilizada por instituições financeiras brasileiras. Isso porque algumas empresas usam serviços de computação em nuvem de companhias americanas, como a AWS, da Amazon.
Ainda assim, Storch afirma que isso não significa qualquer controle dos Estados Unidos sobre o Pix.
De acordo com o especialista, toda a governança, supervisão e operação do sistema continuam sob responsabilidade do Banco Central brasileiro.
“O debate é menos sobre o funcionamento do Pix e mais sobre as possíveis repercussões diplomáticas, regulatórias e comerciais da ampliação das sanções americanas contra organizações classificadas como terroristas”, avaliou.











