
A discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho ganhou força no Brasil. Pesquisa da Nexus mostra que 65% dos brasileiros defendem a diminuição das atuais 44 horas semanais. Além disso, 63% apoiam a adoção da semana de quatro dias, sem corte salarial. Para a mesma proporção da população, a mudança pode representar mais qualidade de vida.
Os dados revelam uma sociedade cansada. Ao mesmo tempo, indicam que o brasileiro enxerga o tempo livre como investimento. Segundo o levantamento, o dia extra seria dedicado à família, à saúde, à geração de renda complementar e à capacitação profissional. Ou seja, o descanso deixa de ser visto como ociosidade e passa a ser compreendido como estratégia de fortalecimento pessoal e produtivo.
Exaustão
Nesse cenário, o psicólogo Lucas Freire, especialista em saúde mental e autor do livro Exaustos: Imaginando saídas para o cansaço diário, chama atenção para o que define como “exaustão coletiva”. Para ele, jornadas prolongadas e a cultura da produtividade constante comprometem não apenas o bem-estar emocional, mas também o desempenho profissional.
Freire sustenta que o descanso adequado melhora foco, tomada de decisão e engajamento. Consequentemente, reduz afastamentos por transtornos mentais e diminui a rotatividade nas empresas. Portanto, investir em jornadas mais equilibradas pode gerar retorno direto para as organizações.
O especialista destaca que a sociedade atual confunde lentidão com ineficiência. Além disso, transforma a multitarefa em virtude, mesmo quando ela prejudica a saúde mental. “A mente humana é bombardeada por estímulos incessantes”, afirma. Assim, o tempo livre se converte em mercadoria e o descanso perde valor.
Neuroprisões
No livro, o autor apresenta o conceito de “neuroprisão”. Segundo ele, estímulos digitais constantes, neuromarketing, excesso de notificações e a cultura do desempenho criam cativeiros mentais. Entre os exemplos, estão o vício em rolar telas, o medo de ficar de fora (FOMO), a dependência de validação nas redes sociais e a busca por performance a qualquer custo.
De acordo com Freire, o impacto já aparece nos números. Em 2024, mais de 470 mil brasileiros se afastaram do trabalho por transtornos mentais. Por isso, ele defende a necessidade urgente de repensar a relação entre trabalho, produtividade e saúde emocional.
Caminhos
Como alternativa, o psicólogo propõe o resgate do “Playfulness”, ou espírito lúdico. Diferentemente da ideia superficial de brincar, o conceito envolve engajamento criativo, curiosidade e leveza diante dos desafios. Segundo ele, o “play” ativa múltiplos circuitos cerebrais, estimula a neuroplasticidade e fortalece a resiliência.
O livro apresenta exercícios práticos, como auditoria de 24 horas, detox de notificações e planos de ação de 90 dias. A proposta é transformar reflexão em mudança concreta. Assim, o autor defende que reduzir jornadas e ampliar o descanso pode ser parte de uma estratégia mais ampla de reconstrução do equilíbrio mental.
Enquanto o debate sobre o fim da escala 6×1 avança no Congresso e nas empresas, a discussão ultrapassa o campo econômico. Cada vez mais, envolve saúde pública, produtividade sustentável e qualidade de vida. O cansaço deixou de ser individual. Agora, tornou-se pauta coletiva.
