
Ansiedade e depressão lideram os afastamentos por saúde mental no Espírito Santo, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Entre 2021 e 2024, os afastamentos por transtornos mentais cresceram 158,9%, passando de 3.385 para 8.763 benefícios por incapacidade temporária. Além disso, apenas no primeiro semestre de 2025, já foram concedidos 4.252 benefícios, mostrando que o volume segue elevado e que o adoecimento psíquico se tornou uma das principais causas de afastamento no Estado.
O aumento coincide com o Janeiro Branco, campanha nacional dedicada à conscientização sobre saúde mental. Portanto, os números reforçam que o problema deixou de ser pontual e passou a ocupar espaço central nas relações de trabalho, em um contexto de pressão constante, sobrecarga e ambientes pouco preparados para lidar com limites emocionais.
Ansiedade e depressão lideram os afastamentos
Os transtornos ansiosos e episódios depressivos concentram a maior parte dos benefícios. Em 2024, os transtornos ansiosos somaram 2.450 afastamentos, enquanto os episódios depressivos chegaram a 2.338, contra 807 e 975 em 2021, respectivamente.
Além disso, aparecem o transtorno afetivo bipolar (1.000 afastamentos em 2024) e o transtorno depressivo recorrente (696). Também houve aumento nos benefícios relacionados à esquizofrenia e ao uso de substâncias psicoativas, como álcool e cocaína. Assim, o impacto do adoecimento mental sobre o mercado de trabalho se amplia significativamente.
Segundo o advogado trabalhista Caio Vairo, sócio do Ferreira Borges Advogados, esses números indicam um problema estrutural. “Quando ansiedade e depressão lideram os afastamentos, isso aponta para falhas na organização do trabalho, com metas excessivas, pressão constante e pouca atenção à prevenção”, avalia.
Mulheres concentram a maioria dos benefícios
As mulheres representam a maior parte dos beneficiários em todos os anos analisados. Em 2024, receberam 5.417 benefícios, contra 3.346 para homens. No primeiro semestre de 2025, a tendência se manteve, com 2.617 concessões para mulheres e 1.635 para homens.
Além disso, Caio Vairo ressalta que esse recorte precisa ser considerado juridicamente. “As mulheres enfrentam jornadas acumuladas, maior exposição a assédio e sobrecarga emocional, aumentando o risco de adoecer em função do trabalho”, explica.
Afastamento não encerra análise de responsabilidades
O crescimento dos afastamentos também reforça a necessidade de atenção aos direitos trabalhistas. Receber o benefício do INSS não encerra a análise do caso. É preciso avaliar se a empresa adotou medidas de prevenção e se o adoecimento tem relação direta com o trabalho. Dependendo da situação, pode haver reconhecimento de doença ocupacional, estabilidade provisória após o retorno e até responsabilização do empregador.
Nova NR-1 torna saúde mental obrigação legal
O debate sobre prevenção ganha força com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a incluir explicitamente riscos psicossociais, como assédio moral, sobrecarga de trabalho, estresse crônico e burnout.
Embora a norma esteja em fase de orientação desde 2025, a exigência legal plena entra em vigor em 25 de maio de 2026, obrigando as empresas a mapear, gerenciar e mitigar esses riscos. Portanto, a atualização representa uma virada de chave: “A saúde mental deixa de ser tratada apenas como um tema subjetivo e passa a integrar obrigações legais, com foco na prevenção e na organização do trabalho”, afirma Caio Vairo.
Os dados mostram que o adoecimento mental já ocupa posição central entre as causas de afastamento no Espírito Santo. Assim, com a nova NR-1, o desafio será transformar esse diagnóstico em ações permanentes de prevenção, capazes de reduzir riscos e evitar que o trabalho continue sendo um fator de adoecimento emocional.onal.
