Nem todo lixo fica na cidade: veja como resíduos chegam aos oceanos

Resíduos percorrem bueiros, rios e canais até chegar ao mar

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- Foto: Canva

No Dia Mundial dos Oceanos (8), especialistas reforçam o alerta sobre os impactos do descarte irregular de lixo nas cidades. Segundo oceanógrafos, resíduos jogados nas ruas podem percorrer quilômetros até alcançar praias, manguezais e o oceano.O problema, muitas vezes, começa longe do litoral. De acordo com o coordenador técnico da Associação Brasileira de Oceanografia no Espírito Santo, Nelio Augusto Secchin, o oceano está diretamente conectado aos rios, córregos urbanos e sistemas de drenagem das cidades.

“O oceano não começa na praia. Ele começa nas nascentes, nos córregos urbanos e nos rios que atravessam nossas cidades”, explicou o especialista.

Durante períodos de chuva, embalagens, copos descartáveis, sacolas plásticas e outros resíduos podem ser carregados para bueiros, galerias pluviais e rios. Dessa forma, todo esse material acaba chegando ao mar.

Além disso, Secchin destaca que o percurso pode acontecer rapidamente em áreas urbanas próximas de rios e canais. Em alguns casos, uma embalagem descartada incorretamente alcança a drenagem pluvial em poucos minutos.

Microplásticos preocupam especialistas

Segundo o oceanógrafo, o lixo plástico não desaparece na natureza. Pelo contrário, ele se fragmenta continuamente até se transformar em microplásticos e nanoplásticos.

Atualmente, essas partículas já foram identificadas em praias, rios, manguezais, sedimentos marinhos, alimentos e até em tecidos humanos.

“Uma embalagem descartada incorretamente pode iniciar uma longa viagem. Primeiro, ela é levada pela chuva. Depois, alcança um bueiro, segue para galerias pluviais, córregos, rios e, finalmente, chega ao oceano”, detalhou Secchin.

Além disso, os microplásticos funcionam como “esponjas químicas”, concentrando substâncias tóxicas presentes na água. Por consequência, eles também ampliam os riscos para animais marinhos e seres humanos.

Animais confundem plástico com alimento

O Projeto Tamar informou que os resíduos mais encontrados no mar são plásticos de uso único, como sacolas, garrafas, tampinhas e canudos.

Consequentemente, diversos animais marinhos acabam ingerindo esses materiais por confundirem o lixo com alimento. Em muitos casos, os resíduos provocam ferimentos, desnutrição e até a morte.

No litoral capixaba, as tartarugas marinhas estão entre as espécies mais afetadas. Sacolas plásticas, por exemplo, costumam ser confundidas com águas-vivas.

“Para o animal, muitas vezes não existe diferença perceptível entre um alimento verdadeiro e um fragmento plástico”, afirmou Secchin.

Além das tartarugas, aves marinhas, peixes, crustáceos e organismos microscópicos também sofrem impactos da poluição. Enquanto isso, pequenos fragmentos plásticos seguem circulando pelas correntes oceânicas.

Descoberta alarmante em Trindade

Pesquisas realizadas no Espírito Santo identificaram um fenômeno preocupante na Ilha da Trindade, localizada a mais de mil quilômetros da costa brasileira.

No local, os pesquisadores encontraram “plastiglomerados”, estruturas formadas pela fusão entre plástico e materiais naturais.

Segundo o especialista, a descoberta demonstra que a poluição plástica já passou a fazer parte dos registros geológicos do planeta. Além disso, o caso evidencia como os resíduos conseguem percorrer enormes distâncias pelos oceanos.

As correntes oceânicas funcionam como grandes esteiras transportadoras. Assim, resíduos descartados em um país podem alcançar outros continentes e ilhas oceânicas brasileiras.

Pequenas atitudes ajudam a proteger os oceanos

Apesar do cenário preocupante, especialistas afirmam que mudanças simples podem reduzir significativamente o problema.

Entre as recomendações estão:

  • reduzir o uso de plásticos descartáveis;
  • separar resíduos para reciclagem;
  • evitar jogar lixo nas ruas;
  • priorizar produtos reutilizáveis;
  • utilizar filtros em máquinas de lavar roupas sintéticas.

Além dessas medidas, o especialista recomenda maior atenção ao descarte correto do lixo doméstico. Dessa maneira, menos resíduos chegam aos rios e ao mar.

“Cada embalagem descartada corretamente representa uma embalagem a menos nos rios, manguezais e oceanos”, destacou Secchin.

Políticas públicas são fundamentais

O especialista também reforça que o combate à poluição marinha depende de investimentos públicos em saneamento, drenagem urbana e educação ambiental.

Entre as medidas apontadas estão:

  • limpeza periódica de bueiros;
  • instalação de estruturas de retenção de lixo;
  • fiscalização do descarte irregular;
  • recuperação de rios urbanos;
  • ampliação do tratamento de esgoto.

Além disso, Secchin ressalta que a educação ambiental possui papel decisivo na mudança de hábitos da população. Segundo ele, conscientizar crianças e adultos contribui diretamente para a preservação dos ecossistemas marinhos.

O Projeto Tamar também reforçou a importância da conscientização coletiva.

“Quando o lixo é bem cuidado em terra, ele não chega ao mar.”