Secretários e membros do governo do prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Theodorico Ferraço (PP), tornaram-se alvos de críticas em série. Algumas são legítimas. Outras, no entanto, já surgem prontas, embaladas e distribuídas pelo mesmo grupo político que perdeu o poder e ainda não assimilou o recado das urnas.

O núcleo ligado ao historiador Weidson Ferreira, tutor político do ex-prefeito Victor Coelho (PSB), comporta-se como se a campanha nunca tivesse terminado. Age por abstinência. Move-se por receio. Além disso, reage à escassez de espaço no tabuleiro eleitoral que se aproxima. Quando falta palanque, sobra barulho.

Formou-se um cinturão de ataque composto por antigos aliados e ex-integrantes da gestão passada. Eles escolhem os alvos com critério: preferencialmente aqueles que acumulam capital político e visibilidade para as próximas eleições. Portanto, não se trata de coincidência. Trata-se de estratégia — e nada ingênua.

Os ataques surgem em ondas. São ruidosos, repetitivos e, muitas vezes, desproporcionais. Soam como latidos constantes contra quem ousa reorganizar uma casa que ficou anos sem manutenção adequada. A crítica integra o jogo democrático. Já a fabricação sistemática de narrativas corrói o debate público.

Alvo preferencial

Nesse cenário, a secretária municipal e vereadora eleita Renata Fiório transformou-se em alvo central. Podem questionar o estilo. Podem discordar da condução. Contudo, até aqui, ninguém apresentou um único indício concreto de improbidade ou corrupção — e isso muda o peso da discussão.

Ela herdou uma estrutura que exige reorganização profunda. Afinal, não se reestrutura uma pasta complexa como a Saúde em poucos meses, sobretudo quando o histórico revela disputas internas, interesses cruzados e cobiça antiga. A cobrança é legítima. Entretanto, a distorção deliberada ultrapassa o limite do razoável.

Cobram dela dois anos de resultados em poucos meses de gestão. Ao mesmo tempo, ignoram o ponto de partida. Também desconsideram as dificuldades estruturais. Reconstruir exige tempo, método e firmeza. Para quem se acostumou ao improviso, planejamento parece lentidão.

Com postura firme, Renata evita a política do agrado fácil. Além disso, não demonstra complacência com práticas equivocadas. Naturalmente, isso incomoda. Em ambientes nos quais a proximidade com cofres públicos era tratada como ativo político, a honestidade deixa de ser virtude e passa a ser obstáculo.

Régua torta

O grupo que hoje ataca tenta medir a atual gestão com a mesma régua da anterior. O problema é que essa régua é torta. Não há equivalência possível quando se fala em método, transparência e compromisso administrativo. Por isso, a comparação não se sustenta.

Até o momento, os disparos miram justamente aqueles que carregam reputação consolidada e trajetória pública sem manchas. Não por acaso. Atacar quem tem densidade eleitoral ajuda a reduzir adversários antes mesmo da largada oficial.

A gestão Ferraço ainda está no início do ciclo. Evidentemente, erros ocorrerão e ajustes serão necessários. Contudo, transformar divergência política em campanha permanente de desgaste não fortalece a cidade. Pelo contrário, revela o receio de quem teme perder relevância.

O pano de fundo

No fundo, o embate não é administrativo. É eleitoral. Trata-se de reposicionamento de forças. De um lado, um governo que tenta reorganizar a máquina pública. De outro, um grupo que perdeu o comando e, por isso, busca manter influência por meio de críticas contínuas e produção de factóides.

Cachoeiro precisa de fiscalização séria, oposição responsável e debate qualificado. Além disso, necessita de maturidade política. Quando se confunde divergência com sabotagem, presta-se desserviço à própria história.

Se houver irregularidade, que se prove. Caso exista erro, que se corrija. Porém, enquanto não surgirem fatos concretos, o que se escuta é ruído vindo do porão — e ruído, por mais alto que seja, jamais substitui argumento.