
Um gesto simples do dia a dia, como esvaziar a bexiga de forma espontânea, deixa de ocorrer quando a pessoa convive com retenção urinária crônica. Nesses casos, a urina permanece acumulada no organismo e aumenta o risco de infecções urinárias frequentes. Além disso, a condição pode exigir uso constante de antibióticos e, em situações mais graves, causar danos aos rins.
Dados do Ministério da Saúde indicam que mais de 350 mil brasileiros enfrentam o problema. Entre as principais causas estão condições neurológicas, como lesão medular, mielomeningocele e esclerose múltipla.
Falha na comunicação entre cérebro e sistema urinário
Segundo especialistas, a retenção urinária ocorre quando há interrupção na comunicação entre o cérebro e o sistema urinário. Dessa forma, o organismo perde a capacidade de controlar o esvaziamento adequado da bexiga.
Quando o esvaziamento não acontece de forma completa, a urina residual permanece no órgão. Esse acúmulo favorece o surgimento de infecções e pode gerar outras complicações clínicas.
Pesquisas apontam que pessoas que utilizam o cateterismo intermitente registram, em média, 3,5 infecções urinárias por ano, o que demonstra o impacto da condição na qualidade de vida.
Cateterismo é método mais utilizado
O cateterismo intermitente limpo é o procedimento mais difundido no país para o manejo da retenção urinária crônica. A técnica consiste na introdução de um cateter pela uretra para drenar a urina acumulada, geralmente entre quatro e seis vezes ao dia.
No Brasil, o modelo mais comum ainda é o cateter de PVC, que exige lubrificação manual antes do uso. No entanto, especialistas apontam que tecnologias mais recentes, como o cateter hidrofílico, podem reduzir etapas do procedimento e diminuir o risco de contaminação e atrito.
Estudos indicam que o uso desse tipo de dispositivo pode contribuir para a redução de infecções urinárias, traumas uretrais e outras complicações.
Impactos na rotina e autonomia
Além das consequências clínicas, a retenção urinária crônica afeta diretamente a autonomia e a vida social dos pacientes. Pessoas que convivem com a condição relatam dificuldades no trabalho, nas atividades diárias e em deslocamentos.
Especialistas destacam a importância de ampliar o debate público sobre o tema, que ainda enfrenta tabus. O acesso contínuo ao tratamento e a tecnologias adequadas é apontado como fator essencial para melhorar a qualidade de vida.
Desafios de acesso no SUS
Embora o cateter hidrofílico tenha sido incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2019, a oferta ainda não ocorre de forma uniforme no país. A ausência de um protocolo clínico nacional dificulta a padronização do diagnóstico, do tratamento e da distribuição do dispositivo.
Na prática, o acesso à tecnologia pode depender de decisões locais ou até de ações judiciais. Especialistas defendem que a regulamentação dos protocolos é fundamental para garantir atendimento adequado e reduzir complicações relacionadas à retenção urinária crônica.

