No Brasil, os festejos de Natal e de Passagem de Ano tornaram-se uma realidade paralela. Governantes competem por quem produz mais brilho, mais fogos pirotécnicos e mais cenários instagramáveis. Enquanto isso, a vida real segue carente do básico. Falta médico, falta professor, falta segurança. Sobra luz artificial.
Primeiro, é preciso nomear o problema. A festa virou política pública. O espetáculo substituiu a gestão. O palco ocupou o lugar do planejamento. Assim, milhões são consumidos em poucas noites para alimentar uma alegria efêmera, enquanto prioridades estruturais permanecem inacabadas.
A inversão das prioridades
Antes de tudo, saúde não pode esperar. Hospitais lotados, filas por exames e ausência de medicamentos convivem com shows milionários. Em seguida, educação sofre com escolas degradadas, evasão e baixos indicadores. Ao mesmo tempo, praças iluminadas exibem árvores cenográficas. Além disso, a segurança pública enfrenta déficit de efetivo e equipamentos, enquanto fogos estouram no céu como se tudo estivesse em ordem.
Portanto, há uma inversão evidente. O acessório passou à frente do essencial. O supérfluo ganhou status de urgência. O necessário ficou para depois.
O custo do espetáculo
Não se trata apenas de gosto ou tradição. Trata-se de dinheiro público. Recursos que poderiam ampliar leitos, reformar escolas ou fortalecer o policiamento são desviados para eventos de curta duração. Assim, o contribuinte paga duas vezes. Primeiro, pelo espetáculo. Depois, pela ausência de serviços.
Além disso, a cultura do brilho cria anestesia social. Por algumas horas, a música alta e os fogos escondem a precariedade cotidiana. Logo após, a conta chega. E chega pesada.
A falsa alegria
É preciso dizer com clareza. A alegria produzida por grandes festejos oficiais é passageira. Dura o tempo do show. Some com a fumaça dos fogos. Em seguida, resta o vazio de políticas públicas que não se sustentam.
Enquanto isso, os mais vulneráveis seguem invisíveis. Não frequentam camarotes. Não aparecem nas fotos oficiais. Porém, são os primeiros a sentir a falta de saúde, educação e segurança.
O princípio da responsabilidade
A Folha do ES defende um critério simples e responsável. Festejos públicos só deveriam ocorrer após o cidadão estar bem servido nas áreas essenciais. Primeiro, o básico. Depois, o acessório. Fora disso, jejum completo de festas oficiais financiadas pelo erário.
Esse princípio não é moralismo. É gestão. Não é antipatia à cultura. É respeito ao dinheiro público. Governar exige escolhas. E escolher o espetáculo em detrimento do essencial é optar pela aparência.
O dever do governante
Governar não é encantar. É resolver. Não é iluminar praças enquanto faltam ambulâncias. É garantir direitos constitucionais. A festa privada é livre. Cada cidadão celebra como quiser. Já a festa pública precisa obedecer a critérios de prioridade e responsabilidade.
Por fim, é preciso romper com a lógica do brilho fácil. O verdadeiro espetáculo de fim de ano seria ver hospitais funcionando, escolas estruturadas e ruas seguras. Isso, sim, mereceria comemoração.
Até lá, menos fogos. Mais Estado presente.

