Ave “ressuscita” após 300 anos e volta ao mar

Espécie considerada extinta foi redescoberta no Atlântico e hoje volta a se reproduzir em ilhas protegidas.

Durante mais de três séculos, o canto que ecoava nas noites de tempestade no arquipélago das Bermudas foi tratado como lenda. No entanto, em 1951, a ciência comprovou que o “fantasma” ainda existia. Naquele ano, pesquisadores localizaram a Bermuda Petrel (Pterodroma cahow) entre fendas rochosas de ilhéus isolados. Assim, a ave declarada extinta desde 1620 voltou oficialmente aos registros vivos.

O mistério do “cahow”

Conhecida como freira-das-bermudas, a espécie mede cerca de 38 centímetros e pode alcançar 92 centímetros de envergadura. Além disso, apresenta plumagem cinza-acastanhada no dorso e branca no ventre, enquanto executa voo ágil sobre o Atlântico Norte.

O nome “cahow”, por sua vez, reproduz o som melancólico do seu chamado. No início do século XVII, a ave era abundante nas Bermudas. Entretanto, após a colonização, desapareceu rapidamente. Desde então, permaneceu apenas em fósseis e relatos históricos por 331 anos.

Por que a espécie desapareceu

A extinção local resultou de uma sequência de impactos humanos. De acordo com o Departamento de Meio Ambiente das Bermudas (DENR), três fatores foram decisivos.

Primeiramente, a introdução de porcos, ratos, gatos e cães devastou os ninhos, já que a ave se reproduz em buracos no solo. Como consequência, ovos e filhotes tornaram-se presas fáceis.

Além disso, colonos passaram a caçar as aves durante períodos de escassez alimentar. Como eram dóceis, eram capturadas com facilidade.

Por fim, o desmatamento para construção naval eliminou áreas adequadas de nidificação. Dessa forma, as poucas sobreviventes foram empurradas para ilhotas rochosas e vulneráveis.

A redescoberta e a reação

Em 1951, uma expedição liderada por Robert Cushman Murphy e Louis L. Mowbray encontrou apenas 18 casais remanescentes. A partir daí, o conservacionista David Wingate assumiu a missão de proteger a espécie e estruturou um santuário na Ilha de Nonsuch.

Posteriormente, cientistas instalaram ninhos artificiais de concreto com entradas milimetricamente projetadas. Com isso, impediram a invasão por aves maiores e agressivas.

Entre 2004 e 2008, pesquisadores transferiram filhotes para áreas mais altas e seguras contra furacões e a elevação do nível do mar. Durante esse processo, alimentaram os jovens manualmente até o primeiro voo. Assim, garantiram que retornassem ao novo local para se reproduzir.

Recuperação gradual

Os resultados indicam avanço consistente. A população saltou de 18 casais, em 1951, para 164 casais reprodutores na temporada de 2024. Atualmente, a espécie segue classificada como “em perigo”. Ainda assim, apresenta crescimento contínuo.

A trajetória do cahow tornou-se símbolo mundial de conservação. Isso porque demonstra que políticas ambientais aliadas à ciência podem reverter cenários considerados irreversíveis. Ao mesmo tempo, reforça o alerta sobre a fragilidade das espécies insulares diante de espécies invasoras um desafio que também impacta diversos ecossistemas brasileiros.

Identidade da espécie

  • Nome científico: Pterodroma cahow
  • Habitat: mar aberto; nidifica apenas em ilhéus das Bermudas
  • Dieta: lulas, pequenos peixes e crustáceos
  • Status: em perigo, com população em expansão

Antes de retornar para nidificar, o jovem cahow passa de três a cinco anos exclusivamente no mar. Depois disso, volta com precisão ao mesmo ninho. Inclusive, os casais permanecem juntos por toda a vida.

Em síntese, a Bermuda Petrel comprova que a extinção nem sempre representa o fim definitivo. Quando há intervenção técnica, planejamento e persistência, a recuperação deixa de ser exceção e passa a ser possibilidade concreta.

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