
Por: Grasieli Ravera
Dirigir parece uma tarefa simples para grande parte da população. No entanto, uma parcela significativa enfrenta dificuldades reais ao assumir o volante. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 6% dos brasileiros convivem com a maxofobia, o medo de dirigir.
A coordenadora escolar Simony Helena Costa Calmon, de 53 anos, está entre os motoristas que lidam com essa insegurança. Ela conta que o medo se intensificou após conquistar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e, desde então, passou a limitar seus deslocamentos.
“Como moro perto dos lugares que frequento, consigo dirigir sem grandes problemas. Porém, quando preciso ir a locais fora da minha zona de conforto, prefiro não ir por causa do medo”, relata.
De acordo com a neuropsicóloga Fabiana Loreto, especialista em avaliação psicológica e psicologia jurídica, a maxofobia vai além de um receio comum. Trata-se de uma resposta fóbica que afeta o indivíduo em diferentes níveis.
No aspecto fisiológico, o corpo reage com descarga de adrenalina, provocando taquicardia, sudorese e tremores. Em situações mais graves, o quadro pode evoluir para sintomas de pânico, comprometendo até a coordenação motora.
Já no campo cognitivo, o medo se manifesta por pensamentos catastróficos. O motorista passa a imaginar acidentes, falhas mecânicas ou situações extremas que nem sempre correspondem à realidade.
No comportamento, a principal consequência é a esquiva. Mesmo habilitada, a pessoa evita dirigir ou cria justificativas constantes para não assumir o volante. Esse padrão reforça o ciclo de insegurança e dificulta a superação do problema.
Loreto destaca que esse cenário é mais comum do que se imagina. “Muitas pessoas possuem a CNH e dominam as regras de trânsito, mas não apresentam o equilíbrio emocional necessário para lidar com situações imprevisíveis. Sem acompanhamento adequado, o medo se instala e tende a se intensificar com o tempo”, explica.
Gatilhos e obstáculos no trânsito
Entre os principais gatilhos relatados por quem sofre de maxofobia estão o trânsito intenso e a condução em locais desconhecidos. Simony confirma essa percepção.
“Meu medo aumenta quando preciso dirigir em lugares que não conheço ou em vias com muito movimento, onde é necessário tomar decisões rápidas”, afirma.
Segundo a especialista, situações como vias de alta velocidade, ladeiras, manobras sob pressão e ambientes com grande fluxo de veículos costumam elevar o nível de ansiedade. Além disso, experiências traumáticas e críticas de acompanhantes também contribuem para o agravamento do quadro.
Outro fator citado por Simony é o comportamento de outros motoristas. A impaciência no trânsito, buzinas constantes e a falta de respeito às regras aumentam ainda mais a insegurança.
Caminhos para superar a maxofobia
Apesar das dificuldades, especialistas apontam que há tratamento. O acompanhamento psicológico e o treinamento prático são fundamentais para ajudar o motorista a recuperar a confiança.
O instrutor Patrick Martins atua justamente com alunos que possuem medo de dirigir. Ele afirma que muitos chegam habilitados, mas emocionalmente despreparados.
“Há casos de recém-habilitados e também de pessoas que ficaram anos sem dirigir. Em geral, quanto maior o tempo afastado do volante, maior o nível de insegurança”, explica.
Segundo ele, os medos mais comuns envolvem a possibilidade de acidentes, erros durante a condução e o julgamento de outros motoristas.
Para enfrentar essas barreiras, o instrutor adota uma metodologia progressiva. “Primeiro, entendo as dificuldades do aluno. Depois, inicio com situações mais simples e avanço conforme ele ganha confiança. O foco não é apenas dirigir, mas desenvolver controle emocional e segurança nas decisões”, destaca.
Tempo de recuperação varia
O tempo para superar a maxofobia varia de pessoa para pessoa. De acordo com Patrick, entre 10 e 15 aulas já podem gerar avanços significativos.
Por outro lado, Fabiana Loreto ressalta que o acompanhamento terapêutico costuma apresentar resultados entre três e seis meses. Ainda assim, ela faz um alerta: evitar o volante pode agravar o problema.
Ao fugir da direção, o cérebro interpreta o trânsito como uma ameaça real. Esse mecanismo reforça o medo e torna o retorno ainda mais difícil.










