A sucessão no Ministério Público do Espírito Santo entrou em zona de risco por um erro de cálculo do grupo no poder. O procurador-geral de Justiça, Francisco Martínez Berdeal, e sua principal aliada, a ex-PGJ Luciana Gomes Ferreira de Andrade, subestimaram a oposição interna e abriram um flanco desnecessário.
Com o prazo de inscrições encerrado em 26 de janeiro, apenas dois nomes disputam a lista tríplice do biênio 2026–2028: o próprio Berdeal e o promotor Danilo Raposo Lírio, adversário declarado do atual comando. Por isso, o quadro não sugere vitória antecipada. Ao contrário, ele indica perda de controle do jogo.
A estratégia que funcionou em 2024
Em 2024, o grupo da situação operou com precisão. Primeiro, estimulou candidaturas alinhadas. Depois, fragmentou votos. Assim, manteve Danilo fora da lista tríplice.
Mesmo ficando em segundo na votação interna, Berdeal foi reconduzido pelo governador Renato Casagrande. Ou seja, a lista favorável reduziu o custo político da escolha e consolidou a continuidade do bloco.
O erro de leitura em 2026
Desta vez, o roteiro mudou. Berdeal e Luciana não mobilizaram aliados para “encher” a disputa e, consequentemente, diluir a oposição. Com isso, Danilo já entrou na lista que chegará ao Palácio Anchieta, sem depender do resultado final para existir politicamente.
Além disso, Danilo se inscreveu nos minutos finais do prazo, pegando a cúpula de surpresa e impondo um fato consumado. Assim, o que era previsível virou embate direto.
Máquina interna e fadiga do grupo
O grupo no comando apostou no “clima de já ganhou”. Ao mesmo tempo, confiou na força da máquina administrativa, em cargos comissionados e em funções de confiança que ampliam influência. No entanto, essa estrutura não garante maioria absoluta.
O histórico já apontava fragilidades. Em 2024, Berdeal só avançou com conforto porque a multiplicidade de candidaturas pulverizou a oposição. Agora, sem essa pulverização, o desgaste aparece mais nítido.
O discurso de renovação ganha espaço
Danilo tenta ocupar o papel de voz de uma maioria silenciosa. Ele fala em renovação, reunificação e ressignificação do MPES. Além disso, ele resgata críticas a interferências passadas e mira diretamente a influência de Luciana nos bastidores.
Esse discurso encontra terreno fértil porque figuras internas passaram a defender alternância com mais clareza. Movimentos de nomes como Pedro Ivo de Sousa e Maria Clara Mendonça Pimentel reforçam, portanto, que a divisão não é pontual. Ela é estrutural.
Pressão direta sobre Casagrande
Com apenas dois nomes na lista, o governador enfrenta um dilema mais duro. Se reconduzir Berdeal, ele corre o risco de ampliar atritos internos e tensionar a relação com setores que pedem mudança. Se escolher Danilo, ele desagrada o bloco da situação e rompe a lógica de continuidade.
Assim, a escolha deixa de ser burocrática e passa a ser política. E, por consequência, o custo de qualquer decisão sobe.
Resultado: uma sucessão que virou teste
Em resumo, Francisco Berdeal e Luciana Andrade perderam a oportunidade de “liquidar a fatura” cedo. Em vez disso, transformaram uma sucessão administrável em um teste de lealdades, forças e desgaste.
No Espírito Santo, onde o MPES pesa no xadrez institucional, subestimar o adversário pode gerar uma conta cara. Agora, o jogo ficou aberto e, assim, foi perdida a chance de resolver a partida no primeiro tempo.
