Desigualdade salarial no ES penaliza mulheres e amplia perdas

Dados revelam que mulheres recebem salários menores que homens no Espírito Santo, mesmo exercendo funções semelhantes

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- Foto: criada por IA

No Espírito Santo, a desigualdade no mercado de trabalho impacta diretamente a vida das mulheres. Dados do Atlas das Mulheres do Espírito Santo, lançado nesta quinta-feira (26), mostram que a diferença salarial e o acesso à renda seguem como desafios persistentes no Estado.

Além disso, o estudo detalha como essa desigualdade se distribui em diferentes áreas, como Esporte, Ciência, Cultura e Trabalho Doméstico. Embora as mulheres sejam maioria em vários desses setores, a valorização financeira não acompanha essa presença.

De forma geral, a diferença salarial chega a 31,6% no Espírito Santo, índice acima da média nacional. Os dados têm como base informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mulheres enfrentam barreiras na ciência

No campo da ciência, o estudo evidencia dificuldades no acesso a bolsas de pesquisa, o que compromete a progressão na carreira acadêmica. Segundo o levantamento, 85% das mulheres pesquisadoras e docentes no Brasil não possuem bolsas de apoio do Sistema de Pesquisa Brasileiro.

Além disso, a desigualdade se agrava quando se considera o recorte racial. Apenas 2,6% das bolsas de produtividade são destinadas a mulheres negras, enquanto mulheres brancas concentram 12,3%. Os dados são do Ministério da Educação.

Embora representem 44,8% dos pesquisadores no país, as mulheres ainda são minoria em áreas como Engenharias e Ciências Exatas. Ao mesmo tempo, ocupam menos cargos de liderança.

Outro fator que impacta diretamente a trajetória profissional é a maternidade. Durante a elaboração do Atlas, pesquisadoras relataram dificuldades para participar de congressos e eventos científicos, principalmente pela falta de apoio institucional.

A coordenadora do estudo, Jaqueline Sanz, destacou que a ausência de rede de apoio leva muitas mulheres a abrirem mão de oportunidades. Segundo ela, essa realidade compromete o crescimento profissional e o acesso à renda.

Para tentar reverter esse cenário, a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) investiu R$ 5,3 milhões, em 2024, por meio do edital “Mulheres na Ciência”, apoiando 51 projetos coordenados por pesquisadoras capixabas.

Desigualdade também aparece no esporte e no trabalho doméstico

No esporte, a participação feminina também enfrenta limitações. Em 2023, apenas 44,2% das bolsas do Ministério do Esporte foram destinadas a mulheres. Já no Espírito Santo, o programa Bolsa Atleta destinou 42,3% dos benefícios a elas em 2025.

Para mulheres com deficiência, a situação é ainda mais restrita, com apenas 37,2% das bolsas.

Por outro lado, no trabalho doméstico remunerado, onde as mulheres são maioria, a desigualdade salarial também persiste. Mesmo exercendo as mesmas funções, elas recebem menos que os homens.

Dados do IBGE mostram que, em 2022, o rendimento médio dos homens capixabas no trabalho doméstico era de R$ 1.133,32, enquanto o das mulheres era de R$ 1.073,70.

Dessa forma, o Atlas reforça que a chamada “economia do cuidado”, historicamente atribuída às mulheres, segue desvalorizada, tanto do ponto de vista social quanto econômico.

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Na cultura, a desigualdade de renda também se mantém evidente no Espírito Santo. Embora as mulheres representem 43,7% dos trabalhadores do setor no Brasil, elas recebem, em média, 30% a menos que os homens. No cenário capixaba, a diferença é ainda mais acentuada: homens chegam a ganhar até 68,7% a mais que mulheres na área cultural.

Mulheres acumulam carga maior no trabalho doméstico

Além da disparidade salarial, o Atlas revela um desequilíbrio significativo na divisão das tarefas domésticas. As mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais ao trabalho não remunerado em comparação aos homens.

Segundo dados do IBGE destacados no estudo, as capixabas dedicam, em média, 21,5 horas por semana a essas atividades. Já os homens destinam cerca de 11,9 horas no mesmo período.

Esse cenário reforça que a desigualdade de renda não ocorre de forma isolada. Pelo contrário, ela se soma a fatores como raça, classe social e território, ampliando ainda mais as diferenças. Nesse contexto, mulheres negras, que representam mais da metade da população feminina no Estado, enfrentam impactos ainda mais profundos.

Falta de apoio limita crescimento profissional

De acordo com a coordenadora do Atlas, Jaqueline Sanz, a sobrecarga enfrentada por mulheres que conciliam trabalho e cuidado é um dos principais obstáculos para a igualdade de renda.

Nesse sentido, muitas profissionais acabam interrompendo suas carreiras ou recusando oportunidades de crescimento devido à ausência de suporte institucional. A especialista destaca que o problema não é individual, mas estrutural.

Para ela, o Estado, a sociedade e a iniciativa privada precisam assumir responsabilidade na construção de uma rede de apoio mais eficiente. Caso contrário, o mercado continuará perdendo profissionais qualificadas.

“A responsabilidade do cuidado não é só das mulheres; precisa ser compartilhada entre Estado, sociedade e empresas. Sem esse suporte, muitas acabam abrindo mão de oportunidades, o que prejudica toda a sociedade”, afirmou.

Interior lidera qualidade de vida feminina no ES

O Atlas também apresenta o Índice de Qualidade de Vida da Mulher (IQVM-ES), que aponta onde as mulheres vivem melhor no Espírito Santo. Diferentemente do esperado, os melhores indicadores não estão nos grandes centros urbanos.

Municípios do interior, como Apiacá, Água Doce do Norte e Bom Jesus do Norte, lideram o ranking estadual de bem-estar feminino.

Além disso, o estudo mostra que o Estado registrou uma melhora geral de 4,2% no índice consolidado de qualidade de vida das mulheres.

Para a elaboração do Atlas, cerca de 1.400 mulheres participaram de mais de 90 rodas de conversa, envolvendo 19 segmentos distintos. Entre elas, estavam mulheres em situação de rua, trabalhadoras domésticas, mães atípicas, pesquisadoras, lideranças políticas e integrantes de comunidades tradicionais.

O resultado é uma publicação com mais de 600 páginas, que reúne dados e relatos sobre a realidade feminina no Espírito Santo.