
O caso recente de um pai, flagrado por câmeras de vigilância agredindo a filha de apenas 3 anos com um chute no rosto, reacendeu um debate recorrente no Brasil: quais são os limites da educação infantil e até que ponto práticas punitivas ainda são vistas como formas legítimas de disciplinar crianças?
A discussão ganha força diante dos resultados da pesquisa Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes, realizada pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest.
O levantamento mostra uma contradição no comportamento dos brasileiros: embora 91% afirmem que conversar explicando os erros é a forma ideal de educar, 50% consideram aceitável dar um tapa, 37% acham aceitável gritar e 35% concordam com ameaças de agressão física.
Para a coordenadora e professora do curso de Pedagogia da Estácio Espírito Santo, Lorena Bezerra Vieira, esse contraste revela uma contradição que ainda faz parte da forma como muitas famílias brasileiras educam seus filhos.
“Há uma adesão discursiva às teorias pedagógicas modernas, que defendem o diálogo e o respeito à infância. No dia a dia, porém, ainda prevalece uma visão adultocêntrica, que enxerga a criança como um sujeito subjugado. Isso evidencia uma distância entre o que a educação propõe e a realidade de muitas famílias, ainda marcada por relações de poder e práticas punitivas que atravessam gerações”.
Segundo a pedagoga, essa lógica afeta diretamente o desenvolvimento infantil e pode comprometer tanto a aprendizagem quanto as relações sociais da criança.
“Práticas autoritárias colocam a criança em um estado constante de alerta, prejudicando funções como atenção, memória e concentração, essenciais para a aprendizagem. Além disso, quem cresce em um ambiente marcado pela violência pode apresentar dificuldades de socialização, alternando entre a extrema passividade e a agressividade”.
Para ela, o diálogo e o afeto são os verdadeiros pilares da autonomia. Quando a violência é usada para resolver conflitos, a criança aprende que a força é o caminho, podendo perpetuar esse comportamento nas relações com outras pessoas.
Lorena também faz uma distinção importante entre estabelecer limites e aplicar punições. “Enquanto a punição busca o controle pelo medo ou pela privação, o limite promove conscientização e autonomia. A criança precisa compreender a lógica das regras e ser incentivada a reparar as consequências de suas ações, em vez de apenas ser penalizada.”
Na avaliação da psicóloga especialista em neuropsicologia e professora da Estácio, Mariana Passamani Almeida, a diferença entre o que os adultos defendem e a forma como realmente agem está ligada, muitas vezes, aos modelos de educação vivenciados na infância.
“Há uma distorção entre a forma como a pessoa se percebe e como realmente age. Muitas vezes, ela acredita que educa pelo diálogo, mas, diante do estresse, acaba reagindo de forma automática, repetindo modelos que aprendeu ao longo da vida. Quem está de fora costuma perceber esses comportamentos com mais facilidade, enquanto a própria pessoa, por estar emocionalmente envolvida na situação, tem dificuldade de reconhecer suas reações e refletir sobre elas”, explicou.
A especialista destaca que gritos, ameaças e outras formas de violência psicológica podem deixar marcas profundas, mesmo sem causar lesões físicas. Viver em um ambiente marcado por violência verbal, pode, por exemplo, deixar a criança em constante estado de alerta, sem saber quando uma nova ameaça, crítica ou grito pode surgir.
“Isso gera insegurança emocional e pode afetar sua autoestima, sua motivação e sua capacidade de confiar nas pessoas. Muitas crianças crescem acreditando que não são capazes ou que precisam aceitar relações desrespeitosas para receber afeto e atenção, o que pode impactar seus relacionamentos na vida adulta.”
Para Mariana, romper esse ciclo exige que os adultos desenvolvam novas formas de lidar com os próprios sentimentos e assumam o papel de referência emocional para os filhos.
“O adulto é a principal referência da criança. Refletir sobre a própria história, buscar informações sobre desenvolvimento infantil, fazer terapia quando necessário e aprender estratégias de educação baseadas no respeito são caminhos importantes para interromper esse padrão. O medo afasta; o afeto acolhe. É por meio dessa segurança que a criança aprende a lidar melhor com os limites e os desafios do desenvolvimento.”











