
Nos debates sobre o futuro do trabalho, há um consolo recorrente: as profissões manuais estariam a salvo da inteligência artificial. Especialistas afirmam que, por mais sofisticada que seja, a IA não consegue segurar uma colher de pedreiro, estender massa na parede ou assentar pisos. Essa narrativa é reconfortante, mas está equivocada.
O problema não está na premissa técnica a IA sozinha realmente não reboca paredes. Entretanto, é preciso considerar o que vem junto com ela: a IA física. E essa tecnologia já está presente nos canteiros de obra.
Robôs e produtividade
A transformação já impacta diversas etapas da construção. O WLTR ergue paredes com produtividade superior à de um pedreiro experiente, enquanto o Okibo automatiza tarefas de reboco, lixamento e pintura. O P900 assenta pisos rapidamente e com precisão, e o Dusty Robotics transfere projetos digitais diretamente para o canteiro.
Além disso, o Jaibot realiza perfurações para instalações prediais de forma autônoma. No Brasil, o Painter Robot automatiza a pintura de fachadas, mostrando que a robotização da construção civil já chegou ao país.
Resposta a uma crise estrutural
Essa transformação tecnológica não é apenas uma curiosidade. A construção civil é um dos setores menos produtivos da economia global: nas últimas duas décadas, sua produtividade cresceu apenas 1% ao ano, segundo o McKinsey Global Institute (MGI). Ou seja, representa cerca de um terço do avanço da indústria de transformação, ficando abaixo da média da economia.
Ao mesmo tempo, o setor enfrenta escassez de mão de obra. Nos Estados Unidos, o National Center for Construction Education and Research (NCCER) projeta que 41% dos trabalhadores se aposentarão até 2031. No Brasil, o Mapa do Trabalho Industrial do SENAI estima que mais de 4,4 milhões de vagas precisarão ser preenchidas até 2027.
O futuro do trabalho na obra
Atualmente, os robôs não substituem o trabalhador da noite para o dia. O Walter, Jaibot e Painter Robot ainda exigem operadores e supervisão. Contudo, eles mudam a natureza do trabalho e a relação entre pessoas e produtividade. Pedreiros, pintores e azulejistas não serão substituídos por IA que escreve textos. Porém, em partes crescentes de suas tarefas, máquinas físicas guiadas por projetos digitais assumem responsabilidades, e o Brasil precisa começar a refletir sobre essa mudança agora.
Erlon Labatut, criador de conteúdo especializado em robótica e negócios escaláveis











