Violência contra mulheres: interior de SP tem caso a cada 14 minutos

Relatos de agressões revelam cenário alarmante de violência de gênero; no interior de São Paulo, registros apontam um caso a cada 14 minutos, segundo dados de segurança pública

- Foto: Lucy Lima/Arquivo pessoal

Mais de 357 mil casos em 10 anos

Nos últimos dez anos, o interior do estado de São Paulo registrou mais de 357 mil casos de lesão corporal dolosa contra mulheres, quando há intenção de agredir. Os dados são do Painel da Violência da Secretaria de Segurança Pública (SSP) e abrangem o período de 2015 a 2025.

Nesse intervalo, cerca de 59% das ocorrências registradas em todo o estado aconteceram em cidades do interior. Assim, a maior parte dos casos se concentra fora das capitais.

Somente em 2025, o interior paulista contabilizou 38.437 casos de lesão corporal dolosa contra mulheres. Dessa forma, o número representa média de 105 ocorrências por dia, o equivalente a quase um caso a cada 14 minutos.

Além disso, a atualização mais recente do painel da SSP mostra que janeiro deste ano registrou 3.772 casos. Por outro lado, no mesmo período de 2025 foram contabilizados 3.376 registros, número menor.

Enquanto isso, histórias individuais ajudam a revelar o impacto desses números. Entre as vítimas está a assistente social Lucinete Santiago Lima, conhecida como Lucy Lima, moradora de Presidente Prudente (SP).


Superação após anos de violência

Lucy viveu mais de uma década de violência doméstica. No entanto, a decisão de romper o ciclo aconteceu após um momento extremo de desespero.

“Quando consegui me libertar, estava em um momento de desespero e tentativa de suicídio. Eu estava com uma garrafa de álcool nas mãos e um fósforo na outra. Então, ‘ouvi’ uma voz dizendo: ‘não faça isso’. Voltei chorando ao banheiro e comecei a conversar em frente ao espelho”, relembra.

A partir daquele momento, Lucinete afirma que passou a se enxergar de outra forma. Assim, surgiu o nome Lucy, identidade que passou a representar sua superação.

“Comecei a conversar com a Lucy no espelho. Naquele instante, ela me disse palavras de empoderamento e ânimo. Ao mesmo tempo, senti uma fé muito grande dentro de mim”, conta.


Gravidez após estupro

Na época, em 2012, Lucy estava grávida de seis meses, resultado de um estupro cometido pelo próprio marido. Além disso, o casal já tinha quatro filhos três meninos e uma menina que hoje têm 21, 18, 16 e 13 anos.

Ela afirma que não tinha rede de apoio e que os filhos também sofriam com a situação.

“Eu não podia contar com ninguém. Ainda assim, os filhos sofriam comigo e ninguém se envolvia. Amigos, vizinhos e até o agente de saúde tinham medo”, relata.

Como ocorre em muitos casos de violência doméstica, o agressor mantinha presença constante na vida da vítima e dos filhos. Dessa forma, ele dificultava qualquer tentativa de ruptura.

Mesmo diante desse cenário, Lucy encontrou uma oportunidade ao se interessar por uma propaganda de vestibular.


Mudança de vida

A virada na vida da assistente social aconteceu quando ela foi aprovada em um concurso público e assumiu um cargo na área de gestão. Com isso, conseguiu reorganizar a própria vida.

“Isso mudou a minha história e a dos meus filhos”, afirma.

Logo depois, em 2013, ela iniciou a faculdade de Serviço Social, incentivada pela mãe.

“Minha mãe me incentivou. No entanto, nunca soube o que eu passava. Até hoje, com 79 anos, ela não sabe. Preferi poupá-la”, explica.

Lucy concluiu o curso em 2017. Desde então, passou a atuar na área social.


Transformar dor em propósito

Hoje, Lucy utiliza a própria experiência para ajudar outras mulheres em situação de violência. Além disso, participa de ações de acolhimento e realiza palestras sobre o tema.

Por isso, entre os planos para o futuro está a criação de uma organização não governamental (ONG) voltada ao apoio de vítimas.

“Jamais conseguimos nos libertar totalmente das sequelas. Ainda assim, a vontade de viver sempre traz um sorriso de esperança”, afirma.

Segundo ela, transformar a dor em propósito se tornou fundamental.

“A cura está em ter um propósito. Por isso, quero ser a rede de apoio de alguém”, diz.


Violência no interior exige políticas específicas

Para a professora e pesquisadora Carol Simon, doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), a violência contra mulheres no interior apresenta desafios específicos.

Segundo ela, o fenômeno está ligado a fatores territoriais e à falta de estruturas de apoio fora das capitais.

“Grande parte da rede especializada está concentrada nas capitais. Por consequência, mulheres do interior encontram mais dificuldades para buscar ajuda”, explica.

O Brasil possui 5.570 municípios. No entanto, mais de 80% deles são cidades pequenas.

“Nesses locais, as mulheres têm mais dificuldade de estabelecer rotas de fuga. Isso ocorre porque, em cidades pequenas, os agressores conhecem as pessoas e os lugares”, afirma.

Portanto, para a pesquisadora, o enfrentamento da violência exige políticas públicas regionalizadas.


Leis e desafios no combate à violência

Nas últimas décadas, o Brasil criou leis importantes para proteger mulheres vítimas de violência.

Entre elas estão:

  • Lei Maria da Penha (11.340/2006)
  • Lei do Feminicídio (13.104/2015)
  • Lei do Stalking (14.132/2021)
  • Lei do Minuto Seguinte (12.845/2013)

Apesar desses avanços, especialistas apontam desafios na aplicação dessas políticas.

“Temos leis importantes. No entanto, ainda falta efetivação das políticas públicas necessárias para salvar a vida das mulheres”, afirma Carol Simon.

Por fim, a pesquisadora destaca que apenas cerca de 20% dos municípios brasileiros possuem casas-abrigo ou estruturas especializadas, o que limita a proteção das vítimas.