
Durante muito tempo, aquela ponte representou o caminho do consumo: cruzávamos para buscar espetáculos e eventos fora de casa. Hoje, a travessia inverteu-se. É de lá que o investimento vem para cá – para Vila Velha – e é para cá que se dirigem os olhares, as vozes e os visitantes. Somos destino cultural, somos capital simbólica do Espírito Santo. Cultura é travessia simbólica e econômica. No cenário nacional, o setor cultural é tratado como vetor de desenvolvimento. O estudo “O impacto de choques no setor cultural brasileiro”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2010, mostra que alterações no consumo de bens e serviços culturais repercutem sobre produção, rendimento e emprego no conjunto da economia. Ou seja: quando um real é alocado no setor cultural, cria-se movimento não apenas no palco, mas nas cadeias de serviços complementares – hotelaria, transporte, alimentação, comércio local.
Outro estudo, “Avaliação dos impactos econômicos de eventos locais a partir do modelo input-output” (Universidade Federal Fluminense, 2018), demonstra que festivais e eventos geram efeitos diretos e também induzidos, movimentando diferentes setores da economia. Os resultados mostram que cada real investido em cultura retorna em mais de um real para a economia local, fortalecendo cadeias produtivas, estimulando renda e ampliando o consumo em serviços como transporte, alimentação, hospedagem e comércio.
Em nosso município, essa lógica tomou forma concreta. Temos fortalecido o ecossistema cultural por meio de editais municipais, capacitações, espaços públicos requalificados, incentivos à produção local, e parcerias público-privadas e federais. Muito do recurso que sustenta shows, festivais, mostras e circuitos vem de fora – de instâncias nacionais e de fundos culturais – e, ao aportar aqui, se desdobra internamente. É investimento externo que circula dentro da cidade.
O Movimento Cidade simbolizou essa virada, colocando Vila Velha no mapa nacional. Trouxemos artistas nacionais de grande projeção e, junto deles, valorizamos nossos talentos locais, que dividiram palcos e ampliaram redes de visibilidade. Essa combinação é o que reforça nosso protagonismo: o que é de fora potencializa o que é nosso, e o que é nosso dá sentido ao que chega.
Outro exemplo marcante é o Delírio Tropical, evento que nasceu aqui e se consolidou como referência na cena independente. Com uma curadoria voltada para a produção autoral capixaba e a presença de artistas emergentes, o festival valoriza nossa identidade e projeta novos nomes para além do Espírito Santo. É iniciativa que mostra como o fomento cultural gera frutos diretos na cena local: músicos, produtores, técnicos, empreendedores criativos e público se conectam em torno de um mesmo movimento, reforçando Vila Velha como território fértil para a criação.
Mas não é só nos grandes festivais que o fomento dá frutos. Editais recentes contemplaram projetos de dança, literatura, artes visuais, cultura popular, grupos de tradição local, produção audiovisual e intercâmbios. Esses projetos elevam o protagonismo local – e fazem confluir talentos vila-velhenses e parceiros externos. O que era periferia simbólica hoje concorre em pé de igualdade com circuitos maiores.
Essa travessia simbólica da ponte – primeiro caminho de saída, agora caminho de retorno – não é apenas poética: é política urbana. É afirmação de que nosso território é palco, origem, destino. De que o valor não se mede só em dinheiro, mas na autoestima, no pertencimento, na identidade que ressurge quando olhamos para nós mesmos com orgulho.
Viva Vila Velha! Viva o Espírito Santo!
