
O que nas últimas décadas vinha sendo estudado como uma estratégia terapêutica para reduzir os danos causados pela gordura no fígado parece ter se revelado o contrário: prejudicando a saúde do órgão. Uma pesquisa indicou que usar medicamentos da classe dos inibidores de caspase-2 pode aumentar os riscos de se desenvolver um câncer hepático e não o contrário.
O estudo feito por pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, identificou que o bloqueio da enzima celular leva ao aumento de danos hepáticos ao longo do envelhecimento, podendo elevar o risco de inflamação crônica e câncer.
A descoberta publicada na edição de janeiro da revista Science Advances contraria as estratégias terapêuticas em desenvolvimento, indicando que efeitos iniciais vistos em células jovens não se mantêm com o passar do tempo.
O trabalho demonstrou que a perda da caspase-2 leva ao crescimento anormal de células hepáticas. Esse processo desencadeia inflamação, fibrose e risco maior de câncer de fígado.
Os achados sugerem a necessidade de uma revisão cuidadosa de abordagens clínicas voltadas a essa via biológica que estavam em desenvolvimento.
Como foi feito o estudo?
Para testar essas hipóteses, pesquisadores utilizaram modelos de ratos geneticamente modificados. Nos animais sem a enzima ou com versão inativa, células do fígado tornaram-se maiores e exibiram quantidade elevada de danos genéticos e celulares.
As observações indicaram falhas no controle do ciclo celular que levou a alterações para quadros patológicos mais complexos. Esse modelo experimental permitiu observar a sequência de eventos que leva ao câncer.
“Ao longo do tempo, esses ratos desenvolveram inflamação hepática crônica e características de doença hepática semelhante à hepatite, incluindo cicatrizes, danos oxidativos e um tipo de morte celular ligada à inflamação. À medida que os animais envelheciam, a probabilidade de desenvolverem câncer de fígado aumentava consideravelmente”, resume o estudo.
Entre camundongos idosos sem caspase-2, a incidência de câncer de fígado chegou a ser quatro vezes maior. O padrão observado correspondeu ao carcinoma hepatocelular.
O estudo indica que a caspase-2 é essencial para remover células hepáticas danificadas e anormais à medida que envelhecemos. Sem ela, essas células se acumulam e podem se tornar cancerosas, além de criar um ambiente que predispõe o fígado ao câncer.
Enzima anti-gordura no fígado, mas também pró-tumor
Os dados desafiam o interesse crescente em inibidores da caspase-2 como estratégia terapêutica para tratar ou prevenir doença hepática gordurosa. A pesquisa destaca a necessidade de cautela ao direcionar essa via.
Segundo os autores, benefícios aparentes podem ocultar efeitos tardios prejudiciais. A abordagem experimental revelou que a proteção contra gordura hepática não equivale sempre à proteção contra o câncer.
De acordo com a bióloga Loretta Dorstyn, pesquisadora principal do estudo, o estudo descobriu que a caspase-2 exerce papel central na estabilidade genética das células hepáticas, além de atuar nos níveis de gordura no fígado.
“Embora o bloqueio possa ajudar o fígado a lidar com o estresse causado pela gordura, nosso estudo mostra que, sem a enzima caspase-2, níveis anormais dela impedem o órgão de manter a saúde celular e podem ser prejudiciais”, disse Dorstyn em comunicado à imprensa.
Para a pesquisadora, a investigação destaca a diferença entre efeitos imediatos e tardios da enzima. “Embora a inibição dessa enzima possa ser protetora em animais jovens ou ajudar a prevenir a doença hepática gordurosa a curto prazo, nosso estudo mostra que sua perda a longo prazo é claramente prejudicial”, conclui a bióloga.
FONTE: METROPOLES
