Tendências de bares que precisamos deixar para trás em 2026

Espaços pensados para viralização, “guest bartenders” sem propósito definido e discursos genéricos de sustentabilidade não convencem mais o público

- Público busca bares que oferecem experiência, propósito e identidade • Pexels

Depois de quase três décadas atuando na indústria global de bares, percebo que vivemos hoje um paradoxo curioso. Nunca se falou tanto em experiência, propósito e identidade. Ao mesmo tempo, nunca se produziu tanto excesso, ruído e repetição.

Por isso, mais do que apontar novas tendências, resolvi olhar para aquilo que já soa obsoleto, amplamente discutido por grandes profissionais em grandes eventos de bares ao redor do mundo. Em 2026, mais do que correr atrás da próxima novidade, o verdadeiro sinal de maturidade está em saber o que deixar para trás.

Começo pelos bares que existem apenas como cenário. Espaços pensados prioritariamente para foto, vídeo e viralização, mas que ignoram o conforto, a acústica, a iluminação e o tempo de permanência. Isso cansa. O público mudou. As pessoas querem se sentir acolhidas, conversar, permanecer e criar memórias. Hospitalidade não se mede apenas em likes, mas, sobretudo, no desejo de voltar.

Os menus sem álcool entram nessa mesma reflexão. Quando tratados como apêndice ou como versões “menores” da coquetelaria clássica, perdem força e relevância. Em 2026, é fundamental que as bebidas não alcoólicas tenham identidade própria, linguagem sensorial clara e valor percebido. Não se trata de simplesmente retirar o álcool, mas de construir uma categoria sólida, criativa e completa.

Vejo também uma fadiga crescente em relação aos “guest bartenders” sem propósito definido. Intercâmbios sempre foram essenciais para a evolução da coquetelaria, mas sua essência está na troca real de conhecimento, no diálogo entre culturas, técnicas, valores e visões de mundo. Quando isso não existe, o encontro se resume a festas desorganizadas, excesso de barulho e pouca entrega técnica ou conceitual, e se perde a oportunidade de oferecer algo verdadeiramente especial.

Outro movimento que começa a perder fôlego é a mixologia excessivamente intelectualizada. Cartas que parecem teses acadêmicas, discursos técnicos intermináveis e ingredientes apresentados como códigos secretos criam distância emocional. Técnica só faz sentido quando serve ao essencial. Em 2026, ela precisa ser traduzida com clareza, de forma acessível, integrando-se à experiência completa do bar.

A sustentabilidade também exige um novo nível de responsabilidade. Frases de efeito, canudos reutilizáveis e discursos genéricos já não convencem. O público sabe reconhecer quando há compromisso real e quando há apenas uma estética verde.

Sustentabilidade hoje é humana, é operacional, é escolha consciente de fornecedores, redução de desperdício e, acima de tudo, coerência. “Greenwashing” deixou de ser marketing e passou a representar um risco real para a credibilidade.

Ainda conversando com muitos especialistas, fica claro também que conceitos excessivamente fechados envelhecem rapidamente. Bares presos a um único tema, com narrativa rígida ou estética imutável, têm pouca margem de evolução. Em 2026, o mundo pede projetos vivos, capazes de amadurecer junto com seu público, com o tempo e o contexto.

Por fim, talvez o erro mais comum seja confundir hype com estratégia. Rankings, prêmios e viralização são consequências, nunca o ponto de partida. Bares que nascem apenas para chamar a atenção tendem a desaparecer quando a moda muda.

Em 2026, a tendência mais real e consistente é a clareza, a identidade e a hospitalidade genuína. Menos ruído, mais intenção!

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares, Márcio Silva é sócio-proprietário do Exímia Bar, no 61º lugar no The World’s 50 Best Bars 2025, ao lado da chef Manu Buffara e dos irmãos Nic e Gabriel Fullen, do Grupo Locale. Márcio integra há sete anos consecutivos a lista das 100 pessoas mais influentes da indústria global de bares, publicada pela Drinks International – Bar World 100.

Também é reconhecido como líder na cultura mundial de bares pelo Spirited Awards – Tales of the Cocktail, dos EUA, e detém o título de Melhor Profissional de Bar Mundial pelo “Premios Excelencias – Fitur” (Feira Internacional de Turismo), de Madri, na Espanha. Aprendeu o ofício na Europa, onde trabalhou com importantes nomes da mixologia. De volta ao Brasil em 2009, foi consultor responsável pela abertura do SubAstor e, em 2019, tornou-se o primeiro brasileiro a liderar um bar do país na lista do The World’s 50 Best Bars, feito obtido com o Guilhotina.

FONTE: CNN BRASIL