Tecnologia dobra produtividade do café arábica no Noroeste do ES

Com poda, irrigação e novas cultivares, produtores superam a visão do arábica como café rústico e elevam rendimento e qualidade no Espírito Santo

Imagem ilustrativa produzida por IA

Tradicionalmente tratado como um café rústico, o arábica começa a passar por uma transformação silenciosa no Espírito Santo. Diferente do conilon, que há décadas recebe investimentos em tecnologia e manejo intensivo, o arábica avança, aos poucos, na adoção de práticas como poda programada, irrigação e fertirrigação. O resultado já aparece no campo, especialmente no Noroeste capixaba.

Em municípios como Mantenópolis e Alto Rio Novo, produtores que decidiram apostar em manejo técnico viram a produtividade por hectare mais que dobrar, além de ganhos evidentes na qualidade dos grãos.

produtividade que salta no campo

O cafeicultor Alcy Rinell Firmino Marçal, de 27 anos, produtor de arábica no Sítio do Nana, em Mantenópolis, é um dos exemplos dessa mudança. Ele conta que iniciou a poda programada em 2014 e, cinco anos depois, deu um passo além com a irrigação.

“A poda foi uma revolução na nossa lavoura. Em 2019, comecei a irrigar e hoje já fazemos fertirrigação. Nas últimas cinco safras, colhemos em média 55 sacas por hectare. Quem não adota essas práticas fica entre 20 e 25 sacas”, afirma.

A decisão de irrigar, segundo Alcy, começou como um teste, contrariando a vontade do pai. Com equipamentos usados e acompanhamento técnico, ele irrigou apenas um hectare.

“O resultado foi imediato: 20 sacas a mais naquele hectare em comparação aos demais. Hoje, meu pai já implantou o sistema em quase todas as áreas”, relata.

Na região onde mora, cerca de 90% dos produtores de arábica já realizam poda programada, e aproximadamente 30% utilizam irrigação.

irrigação garante mais rentabilidade

No município vizinho, Alto Rio Novo, o produtor Adair Borges, de 51 anos, cultiva 11 mil pés de arábica no Sítio Recanto. Metade da lavoura é irrigada e recebe fertirrigação. Toda a área passa por poda programada.

“A parte irrigada tem uma rentabilidade muito maior. Estimo um ganho de cerca de 40% em relação ao não irrigado”, destaca.

plantio já nasce com tecnologia

Na Fazenda Rondoninha, na localidade de Córrego Jequitibá, em Alto Rio Novo, o produtor Clóvis Andreazza Soares de Oliveira, de 53 anos, e o filho, Gabriel Louzada Rosa Soares Oliveira, de 22, decidiram começar diferente. Desde o plantio, o foco foi a tecnologia e a escolha correta das variedades.

Em 2024, Clóvis plantou dois hectares, cerca de 10 mil pés, com 16 variedades diferentes. O objetivo é avaliar quais se adaptam melhor às condições da área. Nesse talhão, são realizadas poda programada, adubação conforme recomendação técnica e análise de solo, sem irrigação.

“Como não tem irrigação, escolhi variedades específicas para cada condição do terreno. A expectativa é colher 40 sacas por hectare já na primeira safra e alcançar entre 60 e 80 sacas a partir do ano seguinte”, projeta.

Em outra área, mais elevada, o produtor implanta 90 hectares com irrigação por gotejamento, fertirrigação, uso de composto orgânico nas covas e microterraceamento. A previsão é atingir uma média de 60 a 70 sacas por hectare.

“Na nossa realidade de morro, ficou claro que só com tecnologia seria possível colher mais, reduzir custos e diminuir a necessidade de mão de obra”, explica.

desafio ainda é cultural

Apesar dos avanços, o rendimento médio do arábica no Espírito Santo ainda é considerado baixo. Segundo Rodrigo Fernandes, responsável pela Unidade de Referência de Cafés Especiais de Alto Rio Novo, a média estadual varia entre 18 e 20 sacas por hectare.

“O grande desafio é mudar a mentalidade. Apenas cerca de 30% dos produtores de arábica de Alto Rio Novo investem em tecnologia. É um processo lento, mas os mais jovens já começam a aderir”, avalia.

Em Mantenópolis, o técnico em agropecuária Claudinei de Sales Silva, da Secretaria Executiva de Desenvolvimento Rural, lembra que a resistência inicial foi grande, mas o cenário vem mudando.

“As lavouras eram conduzidas de forma muito arcaica. Quando os produtores passaram a ver os resultados de quem adotou tecnologia, a resistência diminuiu. Hoje, cerca de 60% já utilizam alguma inovação”, afirma.

Segundo ele, a poda programada e a fertirrigação automatizada estão entre as principais ferramentas adotadas, com impacto direto na produtividade e na organização da mão de obra.

qualidade também entra na conta

Além da produtividade, os tratos culturais refletem diretamente na qualidade dos grãos. Produtor de cafés especiais, Alcy destaca que o manejo equilibrado faz diferença no resultado final.

“Com nutrição adequada e água no momento certo, a planta sofre menos estresse. Isso gera grãos maiores, mais uniformes e com sabores muito superiores”, explica.

Clóvis também mira o mercado de cafés especiais.

“Quando melhoramos os tratos culturais, melhoramos o café. E café melhor vale mais, tem preço melhor”, resume.

Adair, que hoje comanda a marca Café Pico dos Abelheiros, diz que a curiosidade e a busca por qualidade motivaram a mudança no manejo.

“Se no conilon funciona, por que não no arábica? Além disso, com mais cuidado, o café entrega grãos maiores e de melhor qualidade”, afirma.

novas cultivares reforçam avanço

Enquanto os produtores avançam no manejo, a pesquisa também ganha força. Em 2025, o Incaper validou dez cultivares de arábica que se destacaram pela alta produtividade, qualidade superior e menor necessidade de defensivos em 12 municípios das regiões das Montanhas, Caparaó e Noroeste do Espírito Santo.

O instituto lançou ainda uma cartilha técnica com informações detalhadas sobre o desempenho das cultivares em cada região, reunindo dados de produtividade, qualidade da bebida, resistência a pragas e doenças, vigor vegetativo e estabilidade de produção.

O material serve de apoio para produtores que buscam alinhar tecnologia, produtividade e qualidade, reforçando uma nova fase do café arábica capixaba.