A comunidade LGBT do Brasil precisa se espelhar em pessoas como Ruth Coker Burks

Corretora de imóveis nos Estados Unidos dedicou décadas a cuidar de pacientes com HIV abandonados por familiares, hospitais e até instituições religiosas

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- Foto: Divulgação

Em tempos de polarização e disputas político-ideológicas que sufocam as pessoas, resolvi me afastar um pouco desse ambiente e passei a buscar conhecimento na história daqueles que agiram sem atrair holofotes. Foi a partir de então que esbarrei, no TikTok, com um breve relato biográfico de Ruth Coker Burks.


Pesquisei um pouco mais e não encontrei nenhum site brasileiro que falasse de sua história, apenas mídias americanas. Descobri uma biografia que merece ser compartilhada. Infelizmente, o livro que narra o testemunho humanitário desta senhora não possui tradução para o português.

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O livro All the Young Men (“Todos os jovens”, em tradução livre) narra a trajetória de uma cidadã comum, corretora de imóveis, que em 1984, após visitar uma amiga em um hospital, deparou-se com o clamor derradeiro de um paciente terminal de Aids e permaneceu em sua companhia nas últimas treze horas de vida dele.


Naquela época, o preconceito, aliado à ignorância sobre a origem e o contágio do vírus HIV, levou inúmeras pessoas, de vários credos e classes sociais, a relegar os pacientes terminais da enfermidade ao completo isolamento e à morte, como forma de liquidar, para sempre, quaisquer lembranças de suas existências.


Naquele fatídico dia de 1984, Ruth Coker Burks, ao ver laços vermelhos e frases alertando para “não entrar” nos referidos quartos daquele hospital, e ao ouvir uma voz fraca pedindo água, resolveu quebrar os frios protocolos daquele ambiente contraditório: simplesmente entrou e ficou ao lado do paciente moribundo.


Ouviu do rapaz que a própria mãe já o considerava morto. Ruth resolveu ligar para ela, esperando que a situação derradeira do filho a comovesse. “Ele morreu a partir do momento em que se tornou homossexual”, foi a dura sentença que ela jamais cogitou ouvir de uma mãe. Aquele rapaz estava há treze horas sem beber água. Faleceu treze horas depois, com as mãos entrelaçadas às de Ruth.


Ruth Coker Burks foi a mãe que aquele rapaz não teve. Assim como ele, outros também viram na companhia dela a família que lhes faltou com o principal: o amor, apesar das discordâncias.

Atrelada à dor de presenciar pessoas morrendo abandonadas por hospitais, famílias e igrejas — já que até mesmo os padres se recusavam a celebrar os funerais dos vitimados pela Aids —, Ruth Coker Burks passou a enfrentar pesadas formas de discriminação, humilhação e preconceito.


Logo que seus vizinhos tomaram conhecimento de que ela estava fazendo companhia aos pacientes com Aids, mudavam de calçada quando a avistavam. Mãe solteira, ela já vivia certa solidão. Sua filha, ainda criança, começou a ouvir das colegas na escola que “sua mãe cheirava a mortos”. Frequentadora da Igreja Metodista, ouviu de seus próprios irmãos de fé que não deveria mais voltar.


Não obstante, ela continuou. Com as poucas economias que possuía, comprou um terreno no cemitério Files, em Hot Springs. Ela mesma transportava os corpos e realizava os funerais, já que os hospitais não os reivindicavam e as funerárias se recusavam a transportá-los.

Ruth faleceu em 2024, aos 68 anos. Deixou documentos pessoais e um pequeno caderno de capa preta contendo o nome de dezenas de rapazes assistidos por ela em seus últimos dias de vida. “Nenhum deles morreu sozinho”, foi o desfecho de seu depoimento.


Que a biografia de Ruth Coker Burks ganhe em breve uma tradução brasileira como forma de estimular o debate sobre os direitos dos homossexuais. É salutar que estes sejam considerados indivíduos dotados de personalidade própria, e não simplesmente um número representado por uma bandeira ideológica que só beneficia um pequeno grupo de privilegiados.