Como o Brasil busca se tornar referência em reflorestamento

Matas recuperadas ajudam a sequestrar carbono da atmosfera e deixam Brasil mais perto da neutralidade climática, mas faltam verbas

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Foto: Filipe Bispo Vale/picture alliance via Getty Images -

Brasil aposta no reflorestamento para atingir metas climáticas

O Brasil pretende zerar o desmatamento ilegal até 2030, uma meta ambiciosa que, ainda assim, pode não ser suficiente para alcançar a neutralidade de emissões até 2050. Por isso, especialistas defendem que o país precisa, além de preservar, investir fortemente no reflorestamento de áreas degradadas.

Atualmente, o Brasil possui cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser recuperadas, o que representa aproximadamente 12% do território nacional. Dessa forma, o governo estabeleceu a meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

Reflorestamento ajuda a reduzir emissões

A meta foi anunciada em 2015, durante a COP21, em Paris, e, posteriormente, reafirmada em 2024 no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. Além disso, o reflorestamento desempenha um papel essencial no combate às mudanças climáticas, já que as florestas absorvem entre 25% e 30% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Nesse sentido, um estudo do Instituto Escolhas, publicado em 2023, aponta que restaurar os 12 milhões de hectares pode remover 4,3 bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera. Ou seja, o volume equivale a dois anos de emissões do Brasil.

Alto custo e falta de recursos travam avanço

Apesar do potencial, o alto custo representa um dos principais desafios. Restaurar florestas exige investimentos elevados e, atualmente, os recursos públicos disponíveis são limitados. Segundo o mesmo estudo, o país precisaria de cerca de R$ 228 bilhões para cumprir a meta, valor semelhante ao orçamento federal destinado à saúde em 2026.

Como resultado, o avanço do reflorestamento ainda ocorre lentamente. Entre 2022 e 2024, apenas cerca de 150 mil hectares entraram em projetos de restauração, o que representa menos de 2% da meta nacional.

Iniciativas buscam tornar reflorestamento viável

Diante desse cenário, governos, organizações e empresas passaram a desenvolver modelos que tornem o reflorestamento economicamente viável. Entre as alternativas, destacam-se a venda de créditos de carbono, a exploração sustentável de produtos florestais e a integração com atividades agrícolas.

Além disso, uma iniciativa relevante surgiu durante o G20, no Rio de Janeiro, em 2024, com a criação da Coalizão Brasil para o Financiamento da Restauração e da Bioeconomia. O grupo busca unir setor público e privado para acelerar projetos de restauração.

De acordo com projeções, a recuperação de 12 milhões de hectares pode gerar até R$ 776,5 bilhões em receitas, provenientes de diversas fontes, como créditos de carbono, madeira e alimentos.

Capital privado ganha papel estratégico

Especialistas destacam que o capital privado será essencial para viabilizar projetos em larga escala. Nesse contexto, modelos de negócio começam a surgir, como a recuperação de áreas degradadas com posterior venda de créditos de carbono.

Outra estratégia envolve combinar restauração com atividades produtivas, como o cultivo de cacau, café e açaí. Dessa maneira, os projetos conseguem gerar renda ao mesmo tempo em que recuperam o meio ambiente.

Além disso, algumas iniciativas destinam parte das áreas para o plantio de árvores comerciais, como o eucalipto, e utilizam os lucros para financiar a restauração ambiental.

Exemplos práticos já estão em andamento

O governo brasileiro, por exemplo, iniciou concessões de florestas públicas para recuperação. Um dos casos envolve a Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia, onde parte da área será restaurada e outra preservada.

Ao mesmo tempo, estados como o Pará também adotam modelos semelhantes, permitindo que empresas atuem na recuperação de áreas degradadas com apoio de organismos internacionais.

Desafios ainda limitam expansão

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta obstáculos importantes. Por um lado, especialistas apontam a necessidade de maior segurança jurídica, especialmente em questões fundiárias. Por outro, ainda falta clareza sobre regras tributárias e regulamentação do mercado de carbono.

Além disso, alguns ambientalistas criticam o uso de espécies exóticas, como o eucalipto, devido aos possíveis impactos ambientais.

Caminho em construção

Mesmo com desafios, o Brasil segue como referência global no tema. No entanto, especialistas alertam que os modelos atuais ainda precisam comprovar sua viabilidade em larga escala.

Ainda assim, o interesse internacional cresce, e o país pode liderar iniciativas semelhantes em outras regiões. Portanto, o avanço do reflorestamento dependerá da combinação entre políticas públicas, investimentos privados e inovação nos modelos de negócio.