mulher recebe polilaminina pela primeira vez em mg e fala em esperança

Paciente é a primeira em Minas Gerais a receber o medicamento experimental polilaminina e afirma que o tratamento representa uma nova esperança para pessoas que enfrentam doenças neurológicas

- Foto: Luciana Ferreira

Uma moradora de Governador Valadares, no Leste de Minas Gerais, tornou-se a primeira mineira e a terceira brasileira a receber um tratamento experimental que busca estimular a regeneração de conexões nervosas em pessoas com lesão na medula espinhal.

A paciente Thamires Fernandes, de 35 anos, sofreu um acidente de carro em dezembro de 2025 que a deixou paraplégica. Ainda no mesmo mês, após decisão judicial, ela recebeu a chamada polilaminina, uma substância criada em laboratório a partir da laminina proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, principalmente durante o desenvolvimento fetal.

No entanto, a polilaminina ainda não passou por testes clínicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, o composto não está disponível para o público e permanece em fase acadêmica de investigação. Mesmo assim, o tema tem despertado interesse entre pesquisadores e também gerado expectativa em pessoas com paraplegia e tetraplegia em vários países.

Para Thamires, porém, o tratamento representa uma nova possibilidade.

É um sinal de esperança”, resume.

O acidente que mudou a vida

Antes do acidente, Thamires mantinha uma rotina intensa. Formada em engenharia de produção, ela trabalhava como coordenadora administrativa de uma escola de idiomas online. Além disso, também atuava como DJ, profissão que começou após incentivo de amigos.

Com o tempo, ela passou a se apresentar em festas e eventos na região de Governador Valadares e em cidades vizinhas.

Na noite de 12 de dezembro de 2025, Thamires participou de um evento em Teófilo Otoni, também em Minas Gerais. Depois da apresentação, ela e três colegas iniciaram a viagem de volta para casa.

Durante a madrugada do dia 13 de dezembro, o carro em que estavam capotou várias vezes na BR-116. Ainda assim, Thamires permaneceu consciente durante todo o resgate.

“O carro capotou várias vezes. Quando me tiraram, eu já não sentia mais as minhas pernas”, contou.

Entre os quatro ocupantes do veículo, duas pessoas tiveram ferimentos leves. Já Thamires e outro DJ sofreram ferimentos graves.

Logo depois, equipes médicas levaram Thamires para um hospital em Teófilo Otoni, onde exames revelaram a extensão das lesões. Ela fraturou seis costelas, a escápula esquerda, perfurou o pulmão e sofreu uma grave lesão na coluna.

A fratura ocorreu entre as vértebras T10 e T11. Como consequência, a compressão da vértebra provocou o rompimento total da medula espinhal. Na medicina, lesões desse tipo costumam ser consideradas permanentes.

Ela permaneceu internada desde o dia do acidente e, em seguida, passou por cirurgia.

Busca por tratamento

Enquanto Thamires seguia internada, familiares começaram a procurar possíveis alternativas de tratamento. Foi então que o pai dela recebeu informações sobre pesquisas acadêmicas envolvendo a polilaminina, substância associada a estudos coordenados pela pesquisadora Tatiana Sampaio.

Diante disso, a família entrou em contato com a equipe responsável e iniciou o processo para conseguir autorização para o uso da substância.

Como o medicamento ainda está em fase experimental e não possui estudo clínico em andamento, o acesso só pode ocorrer por meio do chamado uso compassivo, previsto em lei para casos em que não existem alternativas terapêuticas disponíveis.

Inicialmente, a Justiça negou o pedido. No entanto, posteriormente, a autorização acabou concedida.

Aplicação do medicamento

Na época, Thamires ainda estava internada em Teófilo Otoni. Por isso, a equipe médica realizou a transferência da paciente para Governador Valadares, onde seria possível aplicar o tratamento.

Além disso, a logística também representava um desafio, já que a equipe médica responsável estava no Rio de Janeiro e o período próximo ao Natal dificultava os deslocamentos.

Mesmo assim, os profissionais realizaram a aplicação da polilaminina no Hospital Regional de Governador Valadares no dia 26 de dezembro de 2025, apenas 13 dias após o acidente.

O procedimento exigiu anestesia porque a posição necessária provocava dor intensa devido às fraturas nas costelas e à cirurgia recente.

Como funciona a polilaminina

A laminina funciona como uma espécie de estrutura biológica que favorece o crescimento e a conexão entre neurônios. A partir desse princípio, pesquisadores desenvolveram a polilaminina, uma rede de proteínas capaz de recriar esse ambiente favorável à regeneração do tecido nervoso.

Na prática, a substância pode ajudar os axônios, responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos, a restabelecer conexões após uma lesão na medula.

Mesmo assim, pesquisadores ressaltam que o tratamento ainda está em fase inicial e que cada organismo pode reagir de forma diferente.

Recuperação

Depois da aplicação, Thamires ainda enfrentou algumas complicações, entre elas uma pneumonia hospitalar. Posteriormente, ela recebeu alta no dia 9 de janeiro.

Desde então, a paciente passou a morar na casa dos pais, em Governador Valadares. Enquanto isso, ela iniciou uma rotina intensa de fisioterapia.

As sessões acontecem cinco vezes por semana. Além disso, ela também realiza exercícios em casa. Parte do atendimento ocorre por meio do Serviço de Atendimento Domiciliar da prefeitura.

Os exercícios incluem estímulos de sensibilidade, fortalecimento muscular e treinos de postura em equipamentos específicos que permitem que ela fique em pé.

“No começo eu ficava totalmente instável. Agora já consigo me manter mais firme”, relatou.

Pequenos sinais

Ainda é cedo para afirmar quais efeitos o tratamento poderá trazer. Mesmo assim, Thamires diz que começou a perceber algumas mudanças.

“Às vezes alguém passa a mão e eu sinto. Passa de novo e não sinto. É como se fosse uma faísca passando por uma ponte”, descreveu.

Recentemente, ela também teve um espasmo na perna e conseguiu realizar um pequeno movimento durante a fisioterapia.

“Foi muito pouco, mas para mim já é um ganho.”

A primeira vez que percebeu alguma sensibilidade trouxe emoção.

Eu chorei, porque veio aquela esperança.”

Mesmo diante das incertezas, Thamires diz que tenta manter uma perspectiva positiva. Ela reconhece que a recuperação pode levar anos e que o tratamento pode ou não trazer resultados.

Ainda assim, prefere olhar para o futuro.

“Quero mostrar que a vida não acabou. Mesmo sobre rodas, ainda é possível viver.”

Para ela, a polilaminina representa justamente isso.

É um sinal de esperança.”