
Quem estuda a Patrística sabe que a unidade se constrói na diversidade e que Jerônimo deixou como legado não uma Bíblia seguida e utilizada por todos os cristãos, mas o ensinamento que a Palavra de Deus, inicialmente oral e em hebraico, depois escrita em alfabeto fenício e aramaico, deveria ser levada ao povo mais simples em uma língua, melhor, uma linguagem que se ouça e entenda. Nunca esquecendo que o povo simples sempre foi preferencial de Jesus Cristo.
Daqui alguns meses, uns devotos do latim serão excomungados da Igreja, eles não entenderam Jerônimo, nem os Papas desde João XXIII, não querem construir unidade na diversidade, dificultam a vida na graça ao povo simples, e querem que toda a Igreja cometa este sacrilégio. Estão em pecado grave. E serão excomungados!
Jerônimo foi convocado pelo Papa Dâmaso a por fim a uma infinidade de textos da Bíblia mal traduzidos para o latim. Isso acontecia com a Igreja na parte ocidental do Império Romano, que já utilizava o latim como língua universal, mas não na parte oriental que conservava o grego como língua desde as conquistas de Alexandre e utilizam a LXX (Septuaginta, tradução feita em Alexandria pelos judeus helenistas). Depois do Concílio de Niceia, os pensadores patrísticos construíram uma Igreja inclusiva (symbolum, em oposição ao diabolos, em voga hoje em grupos católicos e evangélicos).
Então, após diversos esforços, Jerônimo resolveu traduzir a Bíblia para a língua do povo, o Latim. Não o latim culto, nem o dos soldados, mas o do povo, o do vulgo, por isso a Bíblia traduzida recebeu a alcunha de Vulgata. Se Jerônimo traduzisse para o português, seria a Bíblia Povoata ou Populata.
Por que traduziu para o popular? Para ele, “ignorar a Escritura significava ignorar a Cristo”, daí a necessidade do povo entender a Escritura. O mesmo raciocínio e ensinamento patrístico podem ser aplicados perfeitamente às cerimônias, especialmente a Missa: tem que estar na língua do cristão leigo.
Porém, o arcebispo Marcel Lefebvre, em 1970, fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, para formar seminaristas nos ritos tradicionais, na vila de Écône, Suíça. Em 1988, o Papa João Paulo II declarou que o Arcebispo Lefebvre incorreu na grave pena de Excomunhão prevista pelo direito canónico por consagrar quatro bispos. Em 24 de janeiro de 2009, Bento XVI revogou as excomunhões dos quatro bispos ainda vivos.
Pelo jeito, não souberam aproveitar o perdão dado, pois, agora, a Fraternidade desafia a Santa Sé e ordenará bispos em 1º de julho. Segundo o direito canônico, um bispo que consagra outro bispo sem mandato papal e a pessoa que recebe essa consagração incorrem em excomunhão automática.
No Brasil há os Arautos do Evangelho, remanescentes da TFP que não foram excomungados, que também realizam missas em latim. Desde 2017, estão sob investigação da Santa Sé por acusações de delitos canônicos.
Quem assiste a missa em latim fica maravilhado com o figurino e a beleza do culto. Mas devemos reafirmar que missa não é espetáculo para assistir, é para participar da liturgia e do sacrifício incruento do Cordeiro de Deus.
Mario Eugenio Saturno (fb. com/Mario.Eugenio.Saturno) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pós-graduando em Patrística pela UniItalo e congregado mariano.
