A pimenta-de-macaco pode passar despercebida em uma caminhada pelo Cerrado ou pela Mata Atlântica. Muitas vezes, surge como “mato” em quintais e beiras de estrada. No entanto, por trás das folhas ásperas e das espigas alongadas, a espécie Piper hispidum reúne propriedades que a medicina popular já conhecia. Agora, além disso, a ciência começa a confirmar esses efeitos com base em pesquisas recentes.
Um projeto de validação farmacológica conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN), revisitou tratados médicos dos séculos XVII ao XX. A partir dessa análise histórica, os pesquisadores cruzaram dados antigos com estudos modernos. Como resultado, o tradicional “banho de assento” ganhou respaldo científico.
O estudo foi publicado em novembro de 2025 na Revista Fitos. Segundo os autores, a planta apresenta potencial anti-inflamatório, antimicrobiano e ação relevante na saúde feminina. Além disso, os testes laboratoriais ampliaram o entendimento sobre seus compostos ativos.
Espécie nativa e presença popular
Conhecida também como aperta-ruão, pimenta-de-cachorro e falso-jaborandi, a pimenta-de-macaco é nativa do Brasil e se adapta a diferentes biomas. Por isso, aparece com frequência em bordas de mata, áreas rurais e até ambientes urbanos.
O nome científico hispidum, por sua vez, faz referência à textura áspera das folhas. Essa característica, inclusive, ajuda na identificação da planta em meio à vegetação.
O que a ciência confirmou
A análise fitoquímica revelou uma composição rica em óleos essenciais, amidas como a piperina, flavonoides e piperolídeos. Dessa forma, os pesquisadores identificaram um conjunto de substâncias bioativas com diferentes aplicações terapêuticas.
Saúde geniturinária
Os estudos apontaram compostos com ação semelhante à de agonistas de receptores estrogênicos. Assim, a planta pode auxiliar em casos de corrimentos, cistites e no suporte ginecológico. Além disso, registros históricos indicam uso complementar em situações de prolapso uterino.
Ação antimicrobiana
Em laboratório, extratos demonstraram eficácia contra bactérias como Staphylococcus aureus e fungos como Candida albicans. Portanto, os resultados reforçam o uso tradicional em infecções.
Potencial contra a dengue
Além das aplicações clínicas, o óleo essencial das folhas apresentou ação larvicida contra o Aedes aegypti. Dessa maneira, abre-se a possibilidade de uso complementar no combate ao mosquito transmissor da dengue.
Da tradição à validação científica
Para alcançar essas conclusões, a equipe utilizou metodologia de cruzamento entre registros históricos e pesquisas científicas das últimas três décadas. Enquanto analisava documentos antigos, o grupo comparava dados com evidências laboratoriais recentes. Assim, construiu uma base sólida para validar o conhecimento popular.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o uso tradicional e seguro de plantas medicinais pode orientar pesquisas clínicas. Nesse sentido, essa diretriz serviu como referência para o projeto brasileiro.
Cautela no uso
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores fazem um alerta. Ainda faltam ensaios clínicos robustos em humanos. Portanto, não há definição precisa de dosagens seguras ou efeitos a longo prazo.
Além disso, como a planta apresenta atividade hormonal, gestantes e pessoas com distúrbios hormonais devem evitar o uso sem orientação profissional. Assim, o entusiasmo científico precisa caminhar ao lado da responsabilidade médica.
Por fim, a pimenta-de-macaco reforça o potencial da biodiversidade brasileira como fonte de inovação em saúde. Ao mesmo tempo, mostra que tradição e ciência podem dialogar, desde que o conhecimento popular passe por validação rigorosa.
