Onze cidades do ES ultrapassam um ano sem homicídios

Análise revela fatores que permitem municípios capixabas superarem a violência e conquistarem marcas históricas de segurança

- Onze municípios capixabas estão há mais de um ano sem registrar homicídios. Foto: Governo do ES

Por Thamiris Guidoni

Onze municípios do Espírito Santo completaram mais de um ano sem registros de homicídios dolosos, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), atualizados em novembro de 2025. O cenário chama atenção em um país ainda marcado por altos índices de violência letal e levanta o debate sobre os fatores que explicam a redução sustentada desse tipo de crime em determinadas regiões.

Entre os municípios que ultrapassaram a marca de 365 dias sem homicídios estão Dores do Rio Preto, recordista com 1.295 dias, além de Muniz Freire, Apiacá, Bom Jesus do Norte, Castelo, Jerônimo Monteiro, Rio Novo do Sul, Laranja da Terra, Alfredo Chaves, Vila Pavão e Iconha. 

MUNICÍPIOS DO ES HÁ MAIS DE 1 ANO SEM HOMICÍDIOS

Use the column header buttons to sort columns by ascending or descending orderCurrently not sorted

MunicípioDias sem registros de homicídios
Dores do Rio Preto1,295
Iconha1,080
Vila Pavão755
Alfredo Chaves689
Laranja da Terra658
Jerônimo Monteiro568
Rio Novo do Sul568
Castelo538
Bom Jesus do Norte452
Apiacá413
Muniz Freire407

Outras sete cidades capixabas não registram homicídios há pelo menos seis meses, enquanto 23 acumulam períodos entre 30 e 180 dias sem ocorrências, conforme o Mapa da Paz, do Observatório Estadual da Segurança Pública.

Na avaliação do diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e professor do Doutorado em Segurança Pública da UVV, Pablo Lira, o principal fator que explica esse cenário é a consolidação de uma política pública de segurança estruturada no Espírito Santo, com destaque para o Programa Estado Presente em Defesa da Vida.

“O Espírito Santo é hoje o estado com a política de segurança pública mais bem estruturada do país, porque combina repressão qualificada com ações de prevenção. Esse é o eixo central do programa Estado Presente”, afirma.

Segundo ele, o modelo capixaba se diferencia pelo uso de tecnologia e pela integração entre as instituições. “Existe um trabalho integrado das polícias com os 78 municípios, uso de tecnologia, cerco inteligente, reconhecimento facial e planejamento contínuo. Isso tem gerado números históricos”, diz.

Pablo Lira destaca que o Estado encerrou 2025 com o menor número de homicídios desde o início da série histórica. “Fechamos 2025 com 796 homicídios. Em 2009, chegamos ao pico de 2.034. A queda de 2024 para 2025 foi de aproximadamente 6,8% e ocorreu em todas as regiões do Estado”.

Para o pesquisador, além da política estadual, características sociais dos municípios também influenciam os resultados. “São cidades menores, com maior coesão social. As pessoas se conhecem mais, o que ajuda a prevenir conflitos, somado ao trabalho das forças de segurança”, explica.

Redução regional e presença do Estado

A maior parte dos municípios que superaram um ano sem homicídios está localizada na Região Sul, que registrou em 2025 uma redução de 31,6% nos homicídios, o melhor resultado regional desde 1996. Até novembro, foram contabilizados 54 casos, contra 79 no mesmo período de 2024. As demais regiões também apresentaram queda: a Região Serrana reduziu 28,6%; a Noroeste, 15%; a Norte, 7,4%; e a Região Metropolitana, 1,1%.

Para o vice-governador Ricardo Ferraço, coordenador do Programa Estado Presente em Defesa da Vida, os resultados refletem a atuação contínua do poder público. “A presença do sistema público de segurança nos municípios é constante, com estratégia e ostensividade. Em 2025, registramos queda geral nos homicídios, alcançando o melhor desempenho da série histórica”, afirmou.

Segundo ele, o trabalho é permanente. “Todas as regiões apresentaram redução em relação ao ano anterior. É um trabalho contínuo, que segue evoluindo. Agradeço às forças de segurança, que se dedicam diariamente para proteger o cidadão capixaba”, completou.

O secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, também atribui os resultados à atuação integrada das instituições. “Este é um trabalho diário e realizado por muitas mãos. Analisamos o cenário das mortes violentas, direcionamos esforços e ajustamos as estratégias sempre que necessário”.

Segurança, percepção e limites

Pablo Lira é diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e professor do Doutorado em Segurança Pública da UVV. Foto: arquivo pessoal
Pablo Lira é diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e professor do Doutorado em Segurança Pública da UVV. Foto: arquivo pessoal

Ao avaliar se a ausência de homicídios reflete um ambiente mais seguro, Pablo Lira afirma que o indicador é significativo.

“O homicídio é o crime mais grave. Quando um município passa tanto tempo sem esse tipo de ocorrência, isso indica um ambiente mais seguro e reforça a percepção de tranquilidade da população”, afirma.

Ele ressalta, no entanto, que outros crimes podem ocorrer. “Podem existir outros tipos de violência, mas em menor proporção nesses municípios. O fato de não haver homicídios por longos períodos é um sinal muito relevante”, diz.

Sobre a sustentabilidade do modelo, Pablo Lira avalia que ele pode ser replicado, com ressalvas. “É um modelo sustentável, baseado em investimento contínuo, integração entre instituições e parceria com os municípios. Alguns locais têm características que dificultam ficar tanto tempo sem homicídios, mas as ações do Estado Presente já estão sendo replicadas em todo o Espírito Santo”, conclui.

O Programa Estado Presente segue coordenando ações de inteligência, prevenção e intervenção territorial, com monitoramento permanente dos indicadores de criminalidade. Em 2024, o Espírito Santo registrou menos de 900 homicídios no ano, marca inédita na série histórica. Em 2025, até novembro, o Estado contabilizou 720 homicídios dolosos, o menor número desde 1996.

FONTE: ES BRASIL