O silêncio do ES diante dos seus perseguidos políticos

O Espírito Santo falhou com os seus. Falhou por medo, por conveniência e por covardia institucional. A prisão preventiva de capixabas acusados de envolvimento em atos classificados como antidemocráticos revelou não apenas a face mais dura de um sistema de exceção, mas também o silêncio constrangedor de instituições que deveriam existir para proteger direitos, não para assistir à sua erosão.

Na operação realizada em 15 de dezembro de 2022, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal prendeu preventivamente quatro capixabas. Não eram desconhecidos. Tinham vida pública, atuação social e relevância política no Estado.

Foram presos Armandinho Fontoura, vereador de Vitória pelo Podemos; Fabiano Oliveira, pastor evangélico; Max Pitangui, radialista e empresário, também identificado como Maxcione Pitangui de Abreu, que posteriormente deixou o país e buscou refúgio no Paraguai; e Jackson Rangel Vieira, jornalista, fundador e editor do site Folha do Espírito Santo.

Os fatos são públicos. O que não foi público foi a reação.

Naquele início de perseguição, nenhuma nota institucional da OAB foi emitida. Nenhuma manifestação formal em defesa das prerrogativas fundamentais, do devido processo legal ou das garantias constitucionais. A Ordem, que tantas vezes se apresenta como guardiã da legalidade, escolheu o silêncio.

As entidades jornalísticas também se calaram. Nenhuma nota de repúdio, nenhuma defesa clara da liberdade de imprensa quando um jornalista capixaba passou a ser alvo direto de medidas excepcionais. A solidariedade corporativa, tão invocada em discursos, evaporou diante do medo.

Políticos com mandato, inclusive aqueles eleitos sob bandeiras conservadoras e liberais, optaram pela omissão. Silenciaram-se sob a égide de um temor difuso que pairava naquele momento: o medo de serem os próximos. O medo de questionar. O medo de defender direitos universais quando os atingidos não eram politicamente convenientes.

Enquanto o Brasil comenta diariamente o sofrimento dos presos do 8 de janeiro, os capixabas atingidos por um dos mais amplos e controversos inquéritos da história recente foram empurrados para o esquecimento. A punição deixou de ser apenas jurídica. Tornou-se social, econômica e moral.

Criou-se um ambiente em que opinião passou a ser tratada como crime e divergência como ameaça institucional. O chamado “inquérito do fim do mundo” inaugurou um modelo sem paralelo em democracias consolidadas, relativizando garantias, ampliando conceitos penais e instaurando o medo como método.

Ainda mais grave foi a postura do chamado movimento da Direita no Espírito Santo. Retórico nas redes sociais, mas ausente quando seus próprios quadros foram atingidos. Preferiu preservar espaços e mandatos a defender princípios. Fez vistas grossas às distorções do sistema enquanto discursava seletivamente sobre liberdade e Estado Democrático de Direito.

A história, porém, não se limita aos autos nem às decisões de um tempo específico. Ela revisa, expõe e cobra. O futuro haverá de reconhecer o sacrifício desses capixabas não como ídolos infalíveis, mas como símbolos de um período em que o medo venceu a coragem e o silêncio institucional serviu como instrumento de opressão.

Quando esse acerto de contas histórico vier, muitos tentarão dizer que “era cedo”, que “o momento era delicado” ou que “não havia informações suficientes”. Mas o registro permanecerá.

O Espírito Santo se calou.
As instituições se omitiram.
E o silêncio, mais uma vez, escolheu um lado.