Morre João Henrique Cúrcio Allemand, um dos grandes nomes da arte capixaba

Pintor de Muqui construiu uma trajetória marcada por cores, poesia e uma visão única da cultura brasileira

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Morre João Henrique Cúrcio Allemand, ícone da arte capixaba - Divulgação/Luan Volpato.

A arte brasileira perdeu nesta quinta-feira (9) um de seus criadores mais originais. O pintor, desenhista, gravador e serigrafista capixaba João Henrique Cúrcio Allemand morreu aos 91 anos, vítima de pneumonia, em sua cidade natal, Muqui, no Espírito Santo.

Nascido em 1935, João Henrique começou a estudar pintura ainda na infância. Aos 12 anos, já demonstrava interesse pela arte e iniciava uma trajetória que o tornaria um dos grandes representantes da produção artística capixaba.

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Artista foi além do rótulo de arte naïf

Frequentemente associado à arte naïf, João Henrique questionava essa classificação. Segundo ele próprio, sua obra poderia até ser considerada naïf, mas sua visão artística estava longe de ser ingênua.

“Minha pintura é naïf, eu não”, costumava afirmar.

Além disso, suas obras ultrapassavam os limites do chamado primitivismo. O artista utilizava elementos simples para abordar temas contemporâneos, questões sociais e a diversidade, incluindo o universo queer de forma pioneira.

O universo verde do “Homem Verde”

Conhecido carinhosamente como “O Homem Verde”, João Henrique criou uma identidade visual própria. Suas pinturas apresentavam uma natureza idealizada, frequentemente comparada ao Jardim do Éden.

Dessa forma, suas telas reuniam paisagens do interior e do litoral capixaba. Os tons verdes e azuis se tornaram marcas registradas de sua produção.

Ao longo das décadas de 1950 a 1970, o artista viveu no Rio de Janeiro, período marcado por intensa movimentação cultural no país. Nesse momento, conviveu com grandes nomes da arte e da intelectualidade brasileira.

Entre eles estavam Carlos Scliar, Roberto Burle Marx, Vinícius de Moraes, Rubem Braga e Cândido Portinari.

Obras conquistaram grandes personalidades

A sensibilidade artística de João Henrique também chamou a atenção de importantes nomes da cultura mundial.

A escritora Clarice Lispector registrou a amizade com o artista em uma crônica. No texto, ela destacou o encanto pela personalidade e pela obra do capixaba.

“Quase me esqueci de João Henrique, que tem cor de verde e que me deu a dama da noite para perfumar minhas noites.”

Além disso, o escritor colombiano e vencedor do Nobel de Literatura Gabriel García Márquez visitou o artista para adquirir três de suas pinturas.

Retorno às raízes em Muqui

Em 2002, João Henrique decidiu voltar para Muqui, sua cidade natal. No município, instalou seu ateliê em um sobrado histórico e passou a criar novas obras inspiradas pelo cotidiano local.

Nesse período, o artista incorporou novas cores à sua paleta. O casario histórico da cidade e os personagens das Folia de Reis influenciaram sua produção.

Defensor da cultura popular e do patrimônio imaterial, João Henrique manteve sua dedicação à arte. Além disso, seguiu fiel ao compromisso de nunca abrir mão de sua identidade artística.

Legado ultrapassou fronteiras

Autodidata e reconhecido pela originalidade, João Henrique Cúrcio Allemand deixou uma obra que ultrapassou os limites do Espírito Santo.

Suas pinturas fazem parte de acervos importantes, como o Museu de Arte de São Paulo (MASP), além de coleções particulares no Brasil e no exterior.

Ao mesmo tempo, sua produção ganhou exposições em países como Portugal, Inglaterra, Itália, Nova Zelândia e China.

Cultura capixaba perde um símbolo

A morte de João Henrique representa uma grande perda para a cultura capixaba e brasileira. No entanto, seu legado permanece vivo por meio das cores, histórias e paisagens que criou.

Suas obras continuam revelando uma visão poética e luminosa do Brasil. Assim, o universo verde construído pelo artista seguirá aberto para novas gerações conhecerem sua arte.