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Apesar de proibido no Brasil desde junho de 2024, o peeling de fenol (substância tóxica usada para renovação profunda da pele) voltou a viralizar nas redes sociais com relatos de usuários mostrando a recuperação de aplicações feitas em casa com produto comprado pela internet.
Vídeos curtos mostram rostos queimados, descascando e “renascendo”, mas especialistas lembram que procedimento é complexo e alertam para o risco de queimaduras graves, manchas e até de morte.
O fenol, mesmo em mãos experientes, exige monitoramento e ambiente hospitalar. “O uso do fenol no momento é ilegal e não pode ser realizado por ninguém e, quando era autorizado, tinha que ser realizado por profissionais habilitados, médicos que soubessem trabalhar com o fenol, pelo risco de toxicidade e cardíaco”, afirma a médica Alessandra Romiti, assessora do departamento de cosmiatria da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia).
Em sua conta do TikTok, a médica Nathalia Campos comenta a “modinha” relatando o próprio peeling de fenol que deu errado. “Tive uma hiperpigmentação pós-inflamatória e, desde então, ‘ando rebolando para clarear’. Já melhorou muito a mancha, mas o que eu já gastei e ainda gasto não está escrito”, lamenta. Ela conta ter feito o procedimento enquanto aprendia a técnica em um curso.
A empresária Paola Osses também expôs na rede social as consequências de um peeling de fenol mal feito. Ela relata que foi “do sonho ao pesadelo” após uma aplicação em consultório que causou hiperpigmentação na pele. “O médico não sabia cuidar da situação”, afirmou.
A venda do fenol foi suspensa pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) após o tratamento incorreto com a substância ter causado a morte do empresário Henrique da Silva Chagas, 27, em junho do ano passado. A dona da clínica de estética que fez o procedimento em Henrique, Natalia Fabiana de Freitas Antonio, conhecida como Natalia Becker, afirmou ter aprendido a técnica em um curso de R$ 500 vendido online.
Para o cirurgião plástico Fernando Amato, o peeling de fenol traz excelentes resultados quando bem feito, mas falta regulação do uso. “O Fenol é um um peeling agressivo, não pode ser feito em qualquer lugar. Tem riscos como pigmentações ou infecções. O ideal é que só médico pudesse fazer, porque pode precisar de antibiótico, ter uma queimadura de pele”, enfatiza.
O Brasil é o único país com restrição ao fenol. O CFM (Conselho Federal de Medicina) solicitou à Anvisa a liberação da substância ao apresentar mais de 200 estudos sobre seus benefícios em áreas que vão da urologia à neurologia, por suas propriedades cicatrizantes e cauterizantes. A venda ilegal, porém, preocupa: “A comercialização online expõe pacientes a anafilaxia, insuficiência respiratória e complicações cardiovasculares”, diz Yáscara Pinheiro, conselheira do CFM.
Segundo o CFM, há 51 processos mensais por exercício ilegal da medicina, incluindo casos com fenol. Entre 2012 e 2023, 3.377 boletins de ocorrência foram registrados, com dezenas de mortes ou lesões graves. “Acreditamos que esses números sejam ainda maiores, uma questão de saúde pública, considerando o impacto crescente no SUS (Sistema Único de Saúde)”, alerta Pinheiro.
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Riscos ignorados, consequências graves
Além do risco de infecção e intoxicação com sobrecarga cardíaca e renal, o fenol mal aplicado também pode deixar, marcas – risco que se estende a outros procedimentos quando são realizados de forma inadequada.
A advogada Larissa Dornelles, 38, por exemplo, fez peeling químico com microagulhamento para tratar um melasma e dar um aspecto melhor à pele, mas acabou com muita dor e se sentindo desfigurada. “Não sabia que ele era tão agressivo a ponto de eu sequer conseguir abrir a boca para comer. Passei dias sem dormir e com compressas de óleo no rosto, desenvolvi crise de pânico no período, pois achava que ia morrer”, conta.
Segundo os médicos que ela consultou, a pele reagiu mal e, provavelmente, houve mau uso da caneta na hora do microagulhamento. O investimento para corrigir as manchas e marcas foi de mais de R$ 5.000.
Outro caso chocante, desta vez com peeling atacroton, feito com ácido tricloroacético (ATA) e óleo de cróton, é o da médica obstetra Isadora Milhomem, 30. Conforme relato dela nas redes sociais, o rosto sofreu queimaduras de segundo grau e ela precisou usar máscara de compressão o dia todo durante seis meses.
O médico Mauro Kacowicz, especialista em peelings químicos, diz que o problema mais comum é “o aprofundamento excessivo do peeling, que leva a cicatrizes e manchas hipercrômicas”.
“Além disso, tenho observado um aumento nos casos de peelings focalizados, realizados apenas ao redor dos olhos ou da boca. Esse tipo de procedimento pode resultar em um contraste indesejado entre as áreas tratadas e o restante do rosto, criando um efeito que chamo de ‘panda’”, ressalta o médico.
Alternativas seguras ao peeling de fenol
Enquanto o fenol continua banido, Kacowicz sugere aos pacientes os peelings químicos de alta performance, “que oferecem resultados similares e sem riscos sistêmicos”, ainda que raros, atribuídos ao fenol.
Já o cirurgião plástico Fernando Amato recomenda o laser de CO2: “Equivalente em eficácia [ao fenol], porém mais seguro”.
Kacowicz reforça, porém, que em mais de 15 mil pacientes tratados com fenol, nunca teve qualquer intercorrência e que o diferencial, nesse ou em outros peelings, deve ser sempre o cuidado na escolha do profissional.
“O mais importante para o paciente não é apenas o custo, mas a qualificação do profissional. Recomendo sempre pesquisar sobre o médico e verificar: histórico profissional, experiência na realização de peelings profundos, número de pacientes já tratados com sucesso e resultados anteriores”, ressalta.
RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) – DANIELLE CASTRO