
A Polícia Federal identificou indícios de uma suposta “rede de influências espúrias” envolvendo o juiz federal Macário Júdice Neto no Espírito Santo. A conclusão aparece em relatório que analisa conversas do magistrado preso desde dezembro com o empresário Adilson Ferreira, investigado pela Polícia Civil por suspeita de atuar como “braço financeiro” de organização criminosa.
Os investigadores encontraram os diálogos no celular do empresário, apreendido em maio de 2025 durante a Operação Baest, conduzida pela polícia capixaba. Além disso, as mensagens e áudios indicam que o magistrado teria atuado em favor de uma empresa interessada em licitação da Secretaria de Educação do Estado.
Ainda conforme a apuração, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o compartilhamento do material com a Polícia Federal, assim como a Justiça estadual.
Acompanhamento de recurso
Segundo o relatório, o juiz acompanhou a tramitação de um recurso apresentado pela empresa na Procuradoria-Geral do Estado (PGE). Além disso, ele teria orientado estratégias jurídicas e mencionado contatos com servidores ligados ao caso.
Procurada, a assessoria do governador Renato Casagrande (PSB) informou que a Secretaria de Educação e a PGE prestariam os esclarecimentos. Em nota, a pasta destacou que todos os processos licitatórios passam por rigorosos mecanismos de controle interno e afirmou que permanece à disposição das autoridades.
Por outro lado, a Procuradoria declarou que rejeitou os recursos administrativos apresentados pela empresa citada. Já o advogado Douglas Luz, que representa Adilson Ferreira, afirmou que os diálogos não apresentam ilegalidades. Até a última atualização, a defesa do magistrado não respondeu aos contatos.
Relação institucional sob análise
A Polícia Federal também solicitou a abertura de inquérito para apurar a relação entre o magistrado e o governador. Nesse sentido, os investigadores apontaram conversas que poderiam sugerir eventual troca de favores.
No entanto, o relatório não estabelece vínculo direto entre a relação institucional e a suposta rede de influência citada. Anteriormente, Casagrande declarou que o diálogo com o juiz ocorreu em caráter “institucional e republicano”.
Licitação milionária
As conversas analisadas ocorreram entre 2023 e 2024 e tratam, segundo a PF, de atuação do magistrado em favor da empresa Unique Serviços e Transportes. A licitação previa a compra de até R$ 10,5 milhões em aparelhos de ar-condicionado para escolas estaduais.
Em um dos áudios, o juiz afirma que aguardava retorno de um “PGR”. Para os investigadores, a referência indica o então procurador-geral do Estado. Além disso, a PF cita a possível influência do magistrado por meio de um irmão, procurador estadual, que negou qualquer participação ou contato sobre o caso.
Outros pontos citados
O relatório também registra mensagens entre o empresário e a jornalista Flávia Júdice, esposa do magistrado. Segundo a Polícia Federal, os diálogos indicam proximidade entre as partes.
Além dessa investigação, Macário Júdice responde a acusações de vazamento de informações sigilosas para autoridades do Rio de Janeiro. Até o momento, a defesa do juiz não apresentou manifestação pública sobre o conteúdo do relatório.
Cronologia da investigação
A apuração ganhou força após a Operação Baest, deflagrada em maio de 2025 para investigar suspeitas de financiamento do tráfico. Em seguida, o Ministério Público do Espírito Santo solicitou o compartilhamento das conversas com a Polícia Federal, em janeiro deste ano.
Por fim, em fevereiro, os investigadores concluíram a análise do material e apontaram indícios da suposta rede de influência em órgãos da administração estadual.
Os órgãos citados reforçam que colaboram com as autoridades e destacam a adoção de mecanismos de controle nos processos administrativos.
