Ingratidão exposta no Sambão

Por Jackson Rangel

O Sambódromo de Vitória, na noite do dia 6, foi palco de algo que foi além da folia. Mais do que um evento festivo, o local expôs, diante de milhares de olhares, um dos sentimentos mais corrosivos da política: a ingratidão. Naquele contexto, o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), até pouco tempo integrante do grupo do governador Renato Casagrande (PSB), surgiu de braços dados com o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), adversário direto do campo governista.

Portanto, não se tratou de um gesto inocente. Muito menos casual. Ao contrário, foi uma mensagem clara, pública e cuidadosamente calculada.

Traição anunciada

Arnaldinho já vinha, gradualmente, ensaiando o afastamento. Ainda assim, o gesto público escancarou uma ruptura que muitos insistiam em tratar como simples boato. Casagrande foi responsável por investimentos estruturantes em Vila Velha, além disso, deu visibilidade política ao prefeito e sustentou alianças que fortaleceram sua gestão. Mesmo diante desse histórico, Arnaldinho optou por virar as costas ao grupo que o projetou politicamente.

Na política, escolhas falam mais alto do que discursos. Por consequência, essa escolha ecoou mal — e seguirá ecoando.

Grupo antigo

Ao lado de Pazolini, Arnaldinho não se aproximou apenas de um adversário circunstancial. Na prática, ambos orbitam o mesmo núcleo: o do ex-governador Paulo Hartung (PSD). Trata-se de um personagem conhecido por sua habilidade de manipular cenários, capturar lideranças jovens e operar nos bastidores com um objetivo recorrente: eliminar adversários internos, sobretudo Ricardo Ferraço (MDB), hoje o nome mais consistente e competitivo na disputa pelo Governo do Estado.

Nada disso, portanto, é novidade. O método é antigo. O discurso, reciclado.

Não adianta o novo com velhas práticas, mas sim quem tem experiência com práticas novas voltadas para o povo.

Custo político

A política cobra. Sempre. Arnaldinho, ao trocar o grupo de Casagrande pelo grupo de Hartung, assinou um recibo caro. Não apenas pela ruptura em si, mas principalmente pelo simbolismo do gesto. Ingratidão não constrói carreira duradoura e, além disso, não gera confiança entre aliados — atuais ou futuros.

A obsessão de se colocar como candidato a governador, ainda sem densidade estadual e sustentação política real, revela mais vaidade do que estratégia. Nesse ambiente, atitudes assim são próprias de políticos de calças curtas, incapazes de sentar à mesa dos que dominam a palavra, o tempo e o jogo. E vaidade, como a história mostra, costuma custar mandatos.

Força real

Enquanto isso, Ricardo Ferraço segue ampliando apoios na Grande Vitória. Atualmente, conta com o respaldo do prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB); do ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT) e do prefeito da Serra Weverson Meireles (PDT): e do prefeito de Viana, Wanderson Borghardt Bueno (Podemos). Ou seja, trata-se de uma base concreta, com capilaridade política e lastro eleitoral.

Ou seja: o grupo de Casagrande está muito mais forte no centro, norte e sul. No mais, ingratidão não agrega, espalha.

Bem diferente, portanto, de alianças fabricadas em gestos performáticos e fotografias calculadas.

Velhas práticas

Pazolini e Arnaldinho representam uma juventude política que, paradoxalmente, se deixa conduzir por um velho conhecido da política capixaba. Paulo Hartung reaparece como articulador de um enredo já conhecido, marcado por dissimulação, controle e práticas que pertencem a outro tempo.

No fim das contas, a política até admite erros. Mas não perdoa a ingratidão.