
A história do Carnaval capixaba não começou nos holofotes do Sambão do Povo. Antes disso, ela nasceu nas ruas, cresceu nos morros e se fortaleceu na resistência cultural. Ao longo do tempo, o Espírito Santo construiu uma identidade própria, marcada por batuque, memória e organização popular.
Das festas coloniais às primeiras brincadeiras de rua
No fim do século XIX, o Carnaval no Espírito Santo refletia práticas herdadas dos portugueses. Naquela época, as comemorações aconteciam de forma espontânea. Foliões circulavam fantasiados pelas ruas do Centro de Vitória e, ao mesmo tempo, promoviam brincadeiras coletivas que reforçavam o espírito irreverente da população.
Enquanto isso, a elite organizava bailes de máscaras em clubes tradicionais, como o Álvares Cabral e o Victoria Club. Assim, desde o início, o Carnaval capixaba reuniu dois mundos: o popular e o aristocrático. Portanto, sua origem carrega essa mistura social que ainda hoje marca a festa.
Corsos, sociedades e o surgimento das batucadas
Já no início do século XX, o Carnaval começou a ganhar novos formatos. As chamadas “grandes sociedades” passaram a organizar corsos com fantasias padronizadas e carros alegóricos. Primeiro, os veículos eram puxados por cavalos; depois, passaram a circular com automóveis.
Paralelamente, surgiram blocos musicais e batucadas que animavam ruas como a Duque de Caxias. Dessa forma, o ritmo começou a se consolidar como elemento central da festa. Além disso, esses grupos ampliaram a participação popular e fortaleceram o caráter comunitário do Carnaval.
A organização das escolas de samba
Entre as décadas de 1920 e 1930, os grupos de batucada começaram a se estruturar. Inicialmente, eram pequenos coletivos formados por moradores dos morros. Contudo, com o tempo, eles ganharam identidade própria, fantasias, instrumentos e enredos.
A criação da União das Batucadas e Escolas de Samba (Ubes), idealizada por Hermógenes Lima Fonseca, organizou o movimento. A partir daí, o Carnaval deixou de ser apenas espontâneo e passou a ter coordenação e calendário. Consequentemente, surgiram as primeiras escolas de samba oficialmente reconhecidas.
Unidos da Piedade e a consolidação da tradição
Nesse contexto, a Unidos da Piedade despontou como a escola mais antiga do Espírito Santo. Fundada na década de 1950, ela nasceu da união de batuqueiros da Chapéu de Lado com integrantes da Mocidade da Fonte Grande, sob liderança de Rominho.
Desde então, a agremiação representa tradição e continuidade. Além disso, sua trajetória simboliza a força dos bairros na construção do Carnaval capixaba.
Desfiles oficiais e profissionalização
Entre os anos 1950 e 1960, os desfiles passaram a contar com concursos organizados por jornais. Embora ainda ocorressem de forma desordenada, eles já indicavam um novo momento da festa. Nessa fase, os desfiles se concentravam em espaços como o Estádio Governador Bley.
Gradualmente, o Carnaval ganhou regras, critérios de julgamento e maior organização. Assim, iniciou-se o processo de profissionalização das escolas.
Sambão do Povo: um divisor de águas
Posteriormente, a inauguração do Sambão do Povo transformou definitivamente o Carnaval de Vitória. Localizado na Avenida Dário Lourenço de Souza, no bairro Santo Antônio, o espaço ofereceu estrutura adequada para a evolução dos desfiles.
Com isso, as escolas passaram a investir mais em carros alegóricos, fantasias e ensaios técnicos. Além disso, o Sambão criou um ponto fixo de encontro entre enredos e público. Portanto, o local não apenas organizou o espetáculo, mas também consolidou a identidade carnavalesca capixaba.
Blocos de rua e a força da resistência
Antes mesmo da consolidação dos desfiles oficiais, os blocos de rua já comandavam a folia. Eles surgiram como manifestações livres da criatividade popular. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o “Está Cruel”, criado após a proibição dos “Diabos em Folia”.
O nome nasceu de um desabafo, mas, ao mesmo tempo, virou símbolo de resistência. Depois dele, vieram blocos como “Bate-Papo” e “Alegria da Vaca”. Já na década de 1980, o “Solta a Negra” reforçou a tradição da fantasia nas ruas do Centro.
Além disso, grupos organizados em bairros como Glória e Santa Lúcia revitalizaram a cultura carnavalesca de rua. Dessa maneira, o Carnaval manteve sua essência popular mesmo com a profissionalização dos desfiles.
Identidade que atravessa gerações
Hoje, o Carnaval do Espírito Santo reúne tradição e inovação. De um lado, mantém o batuque das comunidades; de outro, apresenta espetáculos cada vez mais elaborados no Sambão.
Assim, seja nos versos improvisados, nas alegorias artesanais ou nos ensaios que atravessam madrugadas, a festa reafirma sua importância cultural. Afinal, o Carnaval capixaba não é apenas evento: é identidade coletiva.
