
Entre 2017 e agosto de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) desembolsou R$ 25,5 milhões para tratar pacientes internados por paracoccidioidomicose (PCM), a infecção fúngica sistêmica que mais mata no país. Pouco conhecida, a doença não integra a lista nacional de notificação compulsória, do Ministério da Saúde, e avança pelo país.
No último sábado (10/1), o Metrópoles publicou uma reportagem especial com dados inéditos sobre a PCM, historicamente negligenciada pelas políticas públicas de saúde.
O valor total gasto — R$ 25.599.969,13 — refere-se exclusivamente a custos hospitalares diretos pagos pelo SUS, como diárias hospitalares, procedimentos médicos e medicamentos administrados durante a internação. Os dados são do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), do Ministério da Saúde, e foram obtidos pelo Metrópoles via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Embora frequentemente tratada como uma doença “rara”, os registros mostram que a paracoccidioidomicose gera internações de forma contínua ao longo dos anos, com impacto financeiro persistente no sistema público de saúde.
Sintomas da PCM
- Feridas na pele;
- Gânglios no pescoço ou na virilha;
- Tosse;
- Falta de ar;
- Feridas na boca ou na garganta;
- Lesões nos olhos;
- Emagrecimento;
- Lesões nos ossos;
- Feridas próximas dos dentes;
- Fígado aumentado;
- Baço aumentado.
Gasto com a doença é contínuo
Os dados do SIH/SUS revelam que a PCM não é um evento isolado nem um surto localizado, mas uma demanda permanente por leitos hospitalares, especialmente em estados com forte presença de áreas rurais e expansão agrícola.
As internações por paracoccidioidomicose se repetem ano após ano, em diferentes regiões do país. Em todos os meses, de janeiro de 2017 a agosto de 2025, não há vácuos temporais nos dados.
Nesse período, 26 estados e o Distrito Federal registraram ao menos uma internação pela doença, evidenciando uma dispersão geográfica inédita. Foram ao menos 2.424 hospitalizações associadas à doença.
Distribuição pelos estados com maior volume mostra a persistência da doença:
• São Paulo (SP): 770 internações
• Minas Gerais (MG): 222 internações
• Rondônia (RO): 131 internações
• Rio de Janeiro (RJ): 124 internações
• Paraná (PR): 103 internações
• Goiás (GO): 78 internações
São Paulo concentra mais de 50% do gasto nacional, impulsionado pelo alto volume de casos e pela recente inclusão da doença na lista estadual de notificação compulsória.
Já estados como Rondônia (RO) e Paraná (PR) chamam atenção pelo alto custo individual de algumas internações, reflexo da gravidade dos quadros clínicos. Em janeiro de 2022, uma única internação em Rondônia custou R$ 46,3 mil ao SUS. No Paraná, outra hospitalização chegou a R$ 19,3 mil em outubro do mesmo ano.
Formas grave da doença pressionam o sistema
A predominância de formas clínicas graves da paracoccidioidomicose ajuda a explicar o peso da doença no sistema público de saúde.
As formas pulmonar e disseminada — esta última quando a infecção atinge múltiplos órgãos — representam 53,6% de todas as internações registradas no período. Foram 486 internações pela forma pulmonar e 426 pela forma disseminada.
“O mais comum é os pacientes chegarem com sequelas pulmonares graves, casos que rapidamente evoluem para fibrose pulmonar. A doença os incapacita para o trabalho e eles precisarão ser aposentados precocemente pelo INSS”, afirma Luciano Corrêa Ribeiro, professor de Infectologia do Hospital Universitário Júlio Müller (MT).
Inimigo invisível
O fungo causador da PCM vive no solo e é invisível a olho nu. O contágio ocorre quando a terra é revolvida: os esporos ficam suspenso no ar e são inalados. O micro-organismo se instala no pulmão e, se não for controlado, leva o paciente à morte.
Ainda não se sabe ao certo a profundidade exata em que o fungo se concentra no solo, mas os especialistas apontam que ele não se encontra em camadas superficiais. Por esse motivo, a paracoccidioidomicose afeta principalmente trabalhadores que lidam diretamente com a terra, como agricultores, garimpeiros e trabalhadores da construção civil.
O Brasil é o país com maior incidência de infecções por Paracoccidioides no mundo: cerca de quatro casos por 100 mil habitantes ao ano. A taxa de mortalidade é de 1,5 por milhão de habitantes.
O fungo também é encontrado em países como Argentina, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Peru, Paraguai, México, Honduras e Guatemala.
Subnotificação amplia o problema
Para a comunidade científica, o impacto real da PCM é subestimado. Isso porque a doença não está incluída na Lista Nacional de Notificação Compulsória, o que dificulta o monitoramento e a formulação de políticas públicas específicas.
Das 27 unidades da Federação, apenas sete realizam testes diagnósticos para a paracoccidioidomicose: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
“Se a detecção da doença ocorresse mais cedo, seria possível adotar tratamentos mais eficazes, com novos antifúngicos e em menos tempo, melhorando a adesão e evitando o abandono terapêutico. Essas desigualdades persistem porque não há uma padronização nacional para o diagnóstico e o tratamento da PCM”, afirma o professor da UFMT.
FONTE: METROPOLES
