Do medo à pesquisa: biólogo transforma veneno de formiga em esperança contra o câncer

O que para muitos brasileiros significa dor, susto e correria nos quintais, por outro lado, para o biólogo Gustavo Pinheiro, de 25 anos, virou objeto de estudo e esperança. Atualmente, como pesquisador do Instituto Butantan, ele investiga o potencial do veneno da formiga lava-pés (Solenopsis) no combate a células cancerígenas. Dessa forma, Gustavo converteu um medo paralisante da infância em uma linha de pesquisa científica.

Em primeiro lugar, especialista em “venenos não convencionais”, o biólogo atua em um campo ainda pouco explorado no Brasil. Ao contrário de serpentes e aranhas, cujos venenos concentram proteínas e peptídeos, a formiga lava-pés apresenta uma característica rara. Nesse contexto, os alcaloides respondem por cerca de 95% da composição do veneno, o que, consequentemente, garante alta capacidade de penetração celular.

No início da vida, o pesquisador conviveu com o medo constante de insetos. “Eu era o menino que morria de medo de besouro, abelha e mariposa. O receio vinha do fato de serem muito diferentes de nós”, relembra. No entanto, com o passar do tempo, essa percepção mudou. À medida que compreendeu a dimensão ecológica desses organismos, Gustavo passou a enxergar as formigas de outra forma. “Elas representam cerca de um terço de toda a biomassa do planeta. A partir disso, o medo deu lugar à admiração”, afirma.

potencial anticâncer em análise

Nesse cenário, a pesquisa se concentra na Solenopsina A, um dos principais compostos do veneno da lava-pés. Segundo estudos internacionais, a substância já apresenta resultados promissores no combate ao câncer. Entre os efeitos observados, pesquisadores identificaram a inibição da angiogênese, que impede o tumor de formar novos vasos sanguíneos, e, além disso, a indução da apoptose, mecanismo que provoca a morte programada das células cancerígenas.

Enquanto isso, no Instituto Butantan, Gustavo concentra o trabalho na análise cromatográfica do veneno. Na prática, ele desenvolve uma “impressão digital química” que, assim, permite identificar e separar cada molécula presente na substância.

Além do potencial terapêutico, a pesquisa também impacta diretamente a saúde pública. Entre 2007 e 2023, o sistema de saúde registrou 5.446 acidentes envolvendo formigas lava-pés, com cinco mortes confirmadas, segundo o Ministério da Saúde. Ainda assim, o Brasil não dispõe de soro específico para múltiplas picadas.

“Por isso, esse estudo não trata apenas do câncer. Também envolve soberania científica. Países como a China já desenvolveram soros específicos; enquanto isso, o Brasil ainda depende de tecnologia externa”, alerta.

organização social e papel ambiental

Além da toxicologia, Gustavo destaca a complexidade social das formigas Solenopsis. Segundo ele, a comunicação ocorre por meio de sinais químicos constantes, interpretados pelas antenas. Nesse sentido, o formigueiro funciona como um único organismo.

“Não existe individualidade. Em vez disso, elas operam como uma inteligência coletiva que sobrevive há cerca de 120 milhões de anos”, explica.

No Brasil, por outro lado, a espécie cumpre papel ecológico relevante. Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, onde causa prejuízos estimados em US$ 8 bilhões por ano, a lava-pés contribui para a ciclagem de nutrientes e o controle de pragas agrícolas. “Assim, a convivência se torna possível quando há respeito ao espaço delas”, pontua.

ciência, origem social e resistência

Paralelamente, a trajetória pessoal do pesquisador acrescenta outra dimensão à pesquisa. Criado próximo a uma comunidade em Guarulhos (SP), Gustavo conciliou a graduação em Biologia com trabalhos como recepcionista e operador de atendimento ao cliente. Mesmo assim, conseguiu ingressar em uma das instituições científicas mais tradicionais do país.

“A ciência ainda mantém uma estrutura elitista e hostil. Em muitos casos, ela permanece fechada dentro da academia”, avalia. Por isso, ocupar espaços como o Instituto Butantan e a USP representa mais do que uma conquista individual.

“Se um jovem da periferia disser que sente que a ciência não é para ele, ele tem razão. Ainda assim, é exatamente por isso que precisa estar nesses espaços. Portanto, ocupar é um ato de resistência”, defende.

Atualmente, entre análises laboratoriais e aulas semanais de forró, Gustavo Pinheiro representa uma nova geração de pesquisadores brasileiros, conectados à realidade social e atentos ao potencial da biodiversidade nacional. Por fim, o próximo passo será o mestrado em Ribeirão Preto (SP), onde ele pretende aprofundar os estudos e transformar a dor da picada da lava-pés em novas perspectivas para pacientes oncológicos.

destaques da pesquisa

  • composição do veneno: 95% alcaloides (solenopsinas) e 5% proteínas
  • alvo clínico: inibição de vias de sinalização que sustentam o crescimento tumoral
  • dados ambientais: formigas representam cerca de 1/3 da biomassa terrestre; milhares de acidentes anuais reforçam a importância de estudos toxicológicos