Cúpula do MPES sob pressão por gastança com diárias e viagens

Dados do Portal da Transparência revelam concentração de pagamentos na alta administração

Em um cenário nacional marcado por decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) para conter gastos no funcionalismo público, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) passou a enfrentar questionamentos sobre a gestão de recursos públicos pela sua alta administração.

Dados disponíveis no Portal da Transparência da própria instituição, referentes ao período entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, indicam concentração significativa de pagamentos e despesas envolvendo integrantes da cúpula ligada ao Procurador-Geral de Justiça (PGJ), Francisco Martínez Berdeal.

Embora os registros sejam públicos e estejam formalmente disponíveis nos sistemas oficiais do órgão, os valores chamam atenção pelo volume expressivo e, sobretudo, pela concentração em um grupo restrito da administração superior. Além disso, os dados passaram a alimentar debates sobre critérios de remuneração e sobre a política de despesas administrativas dentro da instituição.

Remunerações da alta liderança

Cinco membros centrais da atual gestão acumularam, juntos, R$ 4.748.823,60 em pagamentos líquidos ao longo de 13 meses.

Entre os integrantes listados nos relatórios públicos estão:

  • Francisco Martínez Berdeal — Procurador-Geral de Justiça
  • Luciana Gomes Ferreira de Andrade — Subprocuradora-Geral de Justiça Institucional
  • Lidson Fausto da Silva — Diretor-Geral do MPES
  • Bruno Araújo Guimarães — Chefe de Gabinete do Procurador-Geral de Justiça
  • Inês Thomé Poldi Taddei — Secretária-Geral do Gabinete do PGJ

Ao longo do período analisado, os valores mensais apresentaram oscilações expressivas. Em julho de 2025, por exemplo, alguns pagamentos superaram R$ 110 mil líquidos. Posteriormente, em dezembro do mesmo ano, um dos integrantes da gestão recebeu mais de R$ 130 mil.

No acumulado, os valores individuais variam de R$ 858 mil, no caso da secretária-geral, até mais de R$ 1 milhão, no caso do diretor-geral do MPES.

Apesar de os pagamentos estarem formalmente registrados nos sistemas oficiais, o volume de recursos destinados à cúpula administrativa passou a gerar debate sobre critérios remuneratórios e sobre a gestão do orçamento institucional.

Diárias e passagens somam quase R$ 4 milhões

Além das remunerações, os relatórios apontam valores elevados em diárias pagas pelo MPES ao longo de 2025.

Segundo os dados disponíveis:

  • R$ 3.599.808,33 foram pagos em diárias para servidores civis
  • R$ 319.264,54 foram destinados a militares

Assim, o total chega a R$ 3.919.072,87 em diárias no período de um ano.

Parte dessas despesas aparece associada ao Projeto Conecta, iniciativa apresentada institucionalmente como um programa de diálogo e integração com municípios capixabas. Entretanto, os números também passaram a despertar atenção sobre o volume de deslocamentos realizados com recursos públicos.

Projeto conecta concentrou centenas de diárias

De acordo com os registros disponíveis, o Projeto Conecta consumiu R$ 332.732,43 apenas em diárias, com mais de 300 pagamentos registrados.

Oficialmente, a iniciativa busca aproximar o Ministério Público das administrações municipais e ampliar o diálogo institucional com gestores locais. Além disso, o programa tem como objetivo fortalecer a articulação institucional com diferentes regiões do Espírito Santo.

Por outro lado, críticos apontam que parte das atividades envolveu eventos presenciais, encontros e agendas no interior do Estado. Consequentemente, o número de deslocamentos pagos com recursos públicos aumentou de forma significativa ao longo do período analisado.

Viagem ao hospital Einstein reuniu quase 20 integrantes

Outro episódio registrado nos relatórios públicos envolve uma viagem institucional ao Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

A agenda ocorreu entre 14 e 16 de setembro de 2025 e reuniu quase 20 integrantes do MPES.

De acordo com os dados disponíveis, a viagem gerou custo superior a R$ 90 mil, considerando diárias e passagens.

Embora viagens institucionais sejam comuns em órgãos públicos, o número de participantes e o custo total da agenda passaram a ser citados em discussões internas sobre controle de despesas administrativas.

Cúpula registrou mais de R$ 545 mil em deslocamentos

Além dessas agendas específicas, integrantes próximos ao gabinete do Procurador-Geral registraram despesas expressivas com deslocamentos.

Os relatórios indicam:

  • R$ 278.347,81 em diárias
  • R$ 267.486,11 em passagens

Assim, o total chega a R$ 545.833,92 em deslocamentos, incluindo viagens nacionais e internacionais.

Entre os destinos mencionados nos relatórios aparecem Estados Unidos, Panamá e Espanha.

Essas despesas constam nas tabelas públicas intituladas “Diárias PGJ 2025” e “Passagens PGJ 2025”, disponíveis nos sistemas oficiais do Ministério Público.

Críticas e debate sobre austeridade

Os números passaram a gerar críticas e debates sobre a gestão administrativa da instituição. Além disso, o tema ganhou relevância porque ocorre em um momento em que o Supremo Tribunal Federal tem reforçado a necessidade de revisão de verbas que ultrapassem o teto remuneratório no setor público.

Paralelamente, relatos internos mencionam a possibilidade de antecipação de pagamentos antes de eventuais restrições determinadas pelo Judiciário.

Caso essa hipótese seja confirmada, a prática poderia indicar tentativa de adequação antecipada a futuras regras impostas pelo STF.

O paradoxo institucional

O cenário levanta um debate sensível dentro do próprio sistema de controle público.

O Ministério Público possui a missão constitucional de fiscalizar o uso correto do dinheiro público e combater irregularidades administrativas. No entanto, a própria instituição já moveu ações contra câmaras municipais capixabas por gastos considerados abusivos com diárias e viagens.

Entre os casos citados estão:

  • Aracruz — condenação envolvendo mais de R$ 442 mil em diárias consideradas irregulares
  • Rio Novo do Sul — investigação da Operação Sangria, que apurou mais de R$ 500 mil em despesas
  • Serra — recomendação para suspensão de gastos considerados excessivos com viagens

Diante desse contexto, surge um debate que ultrapassa a esfera da legalidade. Enquanto cobra austeridade de outros órgãos públicos, a atual administração superior do MPES registrou, no mesmo período analisado, mais de R$ 545 mil em diárias e passagens para integrantes da própria cúpula.

Assim, a discussão passa a envolver não apenas aspectos formais da legislação, mas também coerência institucional, transparência e responsabilidade na aplicação de recursos públicos.