Coronel disse que “fazia tudo para facilitar a vida” da esposa morta

Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto acionou o desembargador do TJSP Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan após balear a esposa

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Reprodução/Câmera de Monitoramento - Coronel disse que “fazia tudo para facilitar a vida” da esposa morta

Cerca de uma hora após o disparo contra a própria esposa, na manhã de 18 de fevereiro, o tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, disse a um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) que fez “tudo para facilitar a vida dela”.

Logo após o tiro, o oficial ligou para o 190 e desligou. Depois, voltou a entrar em contato com o Copom somente após falar com um superior hierárquico. Na sequência, chamou o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, que foi até o local e ouviu a versão do suspeito.

O tenente-coronel nega ter atirado e afirma que a esposa, a soldado da PM Gisele Alves Santana, de 32 anos, tirou a própria vida. O crime ocorreu no apartamento do casal, no Brás, região central da capital paulista. No início, a polícia registrou o caso como suicídio, mas mudou a classificação para feminicídio após a perícia concluir o laudo.

A Polícia Civil apresentou o resultado à Justiça na segunda-feira (16/3) e, na quarta-feira (18/3), prendeu o coronel. As autoridades o encaminharam ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, onde ele segue preso preventivamente por ordem da Justiça Militar e da Justiça comum.

Declarações após o crime

Enquanto equipes do helicóptero Águia socorriam a vítima, um policial informou ao coronel que Gisele ainda apresentava sinais vitais. Ele respondeu: “Tiro na cabeça. Eu sou instrutor de tiro. Não quero nem pensar nisso”.

Pouco depois, o oficial relatou sua versão ao desembargador e comentou sobre a relação conjugal e a situação financeira do casal. Segundo ele, o relacionamento enfrentava problemas, inclusive pelo fato de dormirem em quartos separados.

O coronel afirmou que pagava entre R$ 7 mil e R$ 8 mil por mês nas despesas da casa e disse que não conseguia mais manter essa situação. Ele também contou que dava uma mesada à esposa desde o casamento, em 2024, e afirmou que não manteria esse apoio em caso de separação. Além disso, criticou o apartamento onde moravam e disse que alugou o imóvel “para facilitar a vida dela”.

Segundo o relato, ele pediu o divórcio e decidiu continuar a conversa no dia seguinte. Na manhã do ocorrido, afirmou que confirmou a decisão, o que, segundo ele, levou a esposa a tirar a própria vida. O oficial disse que estava no banheiro quando ouviu um barulho e, ao verificar, encontrou Gisele caída no chão.

Contradições apontadas pela perícia

A Polícia Civil concluiu o inquérito cerca de um mês após o crime e identificou inconsistências relevantes entre o depoimento do tenente-coronel e as evidências técnicas.

Um dos pontos envolve a posição de uma árvore de Natal no apartamento. O oficial sugeriu que alguém moveu o objeto antes do disparo, mas fotos dos socorristas mostram que ele permaneceu no mesmo lugar até o atendimento. Além disso, a posição da árvore dificultava a visão da cena a partir do banheiro, o que enfraquece a versão apresentada.

Outro ponto central envolve a arma usada no disparo. O coronel deu versões diferentes sobre a posição da pistola, enquanto socorristas afirmaram que a encontraram na mão da vítima. Peritos explicam que, em tiros na cabeça, a vítima dificilmente mantém a arma após o disparo.

A análise das manchas de sangue também levantou suspeitas. O laudo indica que o sangue escorreu enquanto a vítima ainda estava em posição vertical ou semivertical, o que não condiz com a forma como o corpo foi encontrado. Esse padrão sugere que alguém pode ter movimentado o corpo após o disparo.

Além disso, peritos encontraram vestígios de sangue no banheiro, inclusive no box, na roupa e em uma toalha. As marcas indicam gotejamento direto, o que sugere que o investigado permaneceu próximo da vítima enquanto ela ainda sangrava — o que contradiz sua versão de que não teve contato.

Prisão e andamento do caso

Gisele Alves Santana chegou a ser socorrida e levada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu aos ferimentos causados pelo disparo na cabeça. Com o avanço das investigações, a Polícia Civil passou a tratar o caso como homicídio.

Com base nos laudos periciais e na reconstituição dos fatos, a Justiça decretou a prisão preventiva do tenente-coronel, apontado como principal suspeito. Policiais o prenderam em um condomínio em São José dos Campos.

A defesa apresentou um pedido de habeas corpus, que a Justiça deve analisar junto à audiência de custódia. A decisão vai definir se o oficial continuará preso ou responderá ao processo em liberdade.

Ao chegar ao Presídio Militar Romão Gomes, o tenente-coronel recebeu cumprimentos de colegas de farda, que o abraçaram, conforme mostra um vídeo do momento.