Canetas emagrecedoras reduzem em até 40% procura por cirurgia bariátrica no ES

Medicamentos para perda de peso mudam comportamento de pacientes e já impactam número de cirurgias realizadas na rede privada

Arte Da Capa Da Mat Ria Do Site 1000 X 750 Px 65
Imagem ilustrada e gerada por IA. -

A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” já começa a transformar o cenário do tratamento da obesidade no Espírito Santo. Segundo especialistas, a procura por cirurgias bariátricas caiu até 40% nos últimos meses, principalmente entre pacientes da rede privada que decidiram apostar primeiro nos medicamentos para perda de peso.

Além disso, médicos afirmam que muitos pacientes que já estavam em fase de preparação para a cirurgia resolveram interromper o processo para tentar uma alternativa clínica menos invasiva.

De acordo com o presidente do capítulo Espírito Santo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Gustavo Peixoto Soares Miguel, a mudança segue uma tendência observada em todo o País.

“Temos pacientes que já estavam em preparação para a cirurgia e decidiram tentar o tratamento medicamentoso. Essa escolha é compreensível”, afirmou.

Apesar disso, o especialista reforça que as canetas não substituem a bariátrica nos casos mais graves de obesidade.

Canetas podem ajudar antes e depois da cirurgia

Segundo Gustavo Miguel, os medicamentos podem funcionar como aliados da cirurgia bariátrica. Em muitos casos, pacientes com obesidade severa conseguem perder peso antes da operação, reduzindo riscos cirúrgicos e melhorando doenças associadas, como diabetes e hipertensão.

“Muitas vezes, o paciente chega com 190 quilos. Após três ou quatro meses de tratamento, consegue perder mais de 20 quilos e chega à cirurgia em condições mais seguras”, explicou.

Além disso, o uso das medicações também tem apresentado resultados positivos em pacientes que fizeram bariátrica há mais de 10 anos e voltaram a ganhar peso.

“A obesidade é uma doença crônica. Portanto, o tratamento precisa ser acompanhado durante toda a vida”, destacou.

Cirurgia ainda é mais eficaz em casos graves

Mesmo com o avanço das canetas emagrecedoras, médicos alertam que a cirurgia bariátrica continua sendo o tratamento mais eficiente para pacientes com obesidade mórbida.

Segundo estudos citados pelos especialistas, a bariátrica pode ser até cinco vezes mais eficaz no controle do peso e das doenças relacionadas à obesidade.

Além disso, a cirurgia apresenta melhores resultados na prevenção de complicações cardiovasculares e até de alguns tipos de câncer.

“As canetas funcionam muito bem para pacientes com IMC mais baixo e necessidade de perder até 15% do peso corporal. Porém, nos casos de obesidade grave, a cirurgia ainda oferece melhores resultados”, ressaltou Gustavo.

Mudança de hábitos faz diferença no resultado

O empreendedor Cleber Gonçalves, de 41 anos, é um exemplo de transformação com acompanhamento médico e mudança de rotina.

Com quase 124 quilos, diabetes tipo 2, hipertensão e gordura no fígado, ele iniciou o processo para realizar bariátrica. Entretanto, durante o pré-operatório, recebeu orientação para iniciar tratamento com tirzepatida.

O resultado foi a perda de 41 quilos em apenas sete meses.

Além da medicação, Cleber mudou completamente os hábitos alimentares, abandonou o álcool e passou a praticar exercícios físicos.

“Antes eu não conseguia andar 100 metros. Hoje corro 10 quilômetros”, contou.

Paciente relata melhora na autoestima

A professora de informática Kelmann Dantas de Oliveira, de 37 anos, convive com a obesidade desde a infância.

Após duas gestações, ela chegou aos 124 quilos e decidiu realizar cirurgia bariátrica em 2022.

“Com a cirurgia, consegui perder 40 quilos”, relatou.

No entanto, alguns anos depois, voltou a ganhar parte do peso e iniciou novo acompanhamento médico com uso da semaglutida, aliado à alimentação equilibrada e atividades físicas.

Hoje, Kelmann afirma estar com 71 quilos.

“Percebo que tanto a cirurgia quanto os medicamentos trazem benefícios importantes para quem luta contra a obesidade”, disse.

Especialistas alertam para efeito rebote

Apesar dos avanços, médicos demonstram preocupação com o chamado “efeito rebote”, quando pacientes interrompem o uso das medicações e recuperam rapidamente o peso perdido.

Segundo Gustavo Miguel, o tratamento exige acompanhamento contínuo.

“Os medicamentos precisam de uso prolongado. Muitos pacientes interrompem o tratamento e acabam recuperando o peso”, alertou.

O cirurgião do aparelho digestivo Isaac Walker de Abreu também destacou que o tratamento mais eficaz contra a obesidade continua sendo individualizado e multidisciplinar.

“Os dados mostram queda nas cirurgias e aumento no uso das medicações. Porém, a abordagem mais eficiente continua sendo a combinação entre mudança de hábitos, medicamentos e cirurgia, conforme o perfil de cada paciente”, explicou.

Entenda a diferença entre bariátrica e canetas

Cirurgia bariátrica

A bariátrica é indicada para pacientes com obesidade grave ou obesidade associada a doenças como diabetes e hipertensão.

O procedimento reduz a capacidade do estômago e altera o funcionamento intestinal, promovendo perda de peso significativa.

A redução pode chegar a 30% do peso total nos primeiros anos após a cirurgia.

Quem pode fazer

Segundo novas regras do Conselho Federal de Medicina (CFM):

  • IMC entre 30 e 34,9: permitido em casos com doenças graves associadas;
  • IMC entre 35 e 39,9: recomendado quando há comorbidades;
  • IMC acima de 40: não exige doenças associadas.

Canetas emagrecedoras

Medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida imitam hormônios intestinais que controlam o apetite e retardam o esvaziamento do estômago.

Estudos apontam perda entre 15% e 20% do peso corporal.

Quem pode usar

O tratamento é indicado para:

  • Pacientes com obesidade (IMC acima de 30);
  • Pessoas com sobrepeso (IMC acima de 25) associado a doenças como diabetes tipo 2.

Tratamentos podem ser complementares

Especialistas reforçam que não existe disputa entre cirurgia bariátrica e canetas emagrecedoras.

Segundo os médicos, cada caso deve ser analisado individualmente, já que os tratamentos podem atuar de forma complementar na luta contra a obesidade.