
A cirurgia bariátrica transforma o corpo de várias maneiras — incluindo a forma como ele reage ao álcool. Embora o procedimento seja uma ferramenta eficaz contra a obesidade e doenças associadas, especialistas com prática clínica mostram que ele pode aumentar o risco de uso problemático de bebida alcoólica.
Na maioria dos pacientes, o problema aparece alguns anos após a operação. Entender os motivos dessa relação é essencial para prevenir complicações e garantir um acompanhamento seguro no longo prazo.
Segundo o psiquiatra Eduardo Perin, existe, sim, uma associação entre bariátrica e maior risco de uso problemático de álcool, especialmente do segundo ao quinto ano depois da cirurgia.
“Os estudos comprovam essa relação entre a bariátrica e um posterior abuso ou dependência de álcool”, explica. O alerta não significa que todos os pacientes terão problemas, mas indica um risco aumentado que precisa ser monitorado.
Por que o álcool “bate” mais forte após a bariátrica
Há razões fisiológicas e comportamentais para a ação do álcool aumentada em quem fez a bariátrica. Após a cirurgia, o estômago comporta menos volume e o álcool ocupa pouco espaço, além de ser absorvido mais rapidamente. Na prática, pequenas doses podem provocar intoxicação e sensação de controle enganosa.
O cirurgião bariátrico Sérgio Barrichello, do Hospital Albert Sabin (SP), reforça que isso aumenta o risco de julgamentos falhos — como achar que está bem para dirigir — e de complicações associadas ao álcool.
Troca de compulsões?
Para Perin, não se trata exatamente de trocar a compulsão alimentar pela compulsão da bebida, mas de não saber preencher adequadamente o espaço que a comida ocupava.
“A pessoa precisa colocar várias atividades no lugar: vida social, lazer, atividade física, sono de qualidade. Quando isso não acontece — muitas vezes por falta de psicoterapia — o álcool pode acabar ocupando esse espaço”, afirma.
Quem tem mais risco
Pacientes com histórico de ansiedade, depressão ou compulsão alimentar tendem a ter maior vulnerabilidade ao alcoolismo. Isso não significa que o problema seja inevitável, mas indica um fator de risco.
“O álcool passa a ser usado como regulador emocional. Antes era a comida; depois da cirurgia, pode virar a bebida”, explica o psiquiatra.
O álcool é contraindicado? Por quanto tempo?
As recomendações mais aceitas orientam evitar álcool durante a fase de perda rápida de peso. Muitos serviços adotam abstinência por seis a 12 meses, com reavaliação individual depois.
O padrão descrito em estudos de seguimento é variável: o risco pode surgir já no primeiro ano, mas costuma ficar mais evidente por volta de dois anos após a cirurgia e pode aumentar até cinco a sete anos em parte dos pacientes. Por isso, o monitoramento precisa ser de longo prazo, e não só no pós-operatório imediato.
Barrichello destaca que o risco não desaparece com o tempo; ele apenas se torna mais gerenciável com educação, triagem e acompanhamento. Essas orientações constam nas recomendações e no posicionamento da Sociedade Americana de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (ASMBS).
Sinais de alerta que merecem atenção
- Quando o paciente precisa beber mais para sentir o mesmo efeito.
- Quando há tentativa de reduzir e não conseguir.
- Usar o álcool para lidar com emoções negativas.
- Continuar bebendo apesar de doenças ou recomendações médicas.
- Redução do convívio social.
Como prevenir e reduzir complicações
Barrichello orienta evitar o álcool na fase de perda rápida do peso e ter um consumo raro e cauteloso depois (se houver). Nunca beber e dirigir, evitar álcool em jejum (o pico de efeito é maior), rastrear sinais precoces de aumento de frequência e perda de controle e realizar triagens periódicas nos retornos, especialmente em perfis de maior risco, são ações essenciais.
“Se houver indícios de uso problemático, o encaminhamento precoce para psicoterapia e psiquiatria é fundamental. O cuidado ideal começa antes da cirurgia e segue durante e depois”, explica o cirurgião.
No pré-operatório, o consumo de álcool deve ser investigado e, se houver uso de risco, a cirurgia pode ser adiada até a estabilização. No pós, o acompanhamento ajuda o paciente a entender a nova resposta do organismo, a desenvolver estratégias saudáveis para lidar com emoções e a reduzir a chance de que o álcool se torne um problema.
No fim das contas, a bariátrica salva vidas — mas exige educação, vigilância e suporte contínuo para que seus benefícios não sejam comprometidos por riscos evitáveis.
FONTE: METROPOLES
