A união dos três ex-vices e o isolamento de Hartung

A fotografia que reúne Ricardo Ferraço, Lelo Coimbra e César Colnago lado a lado na eleição da executiva do MDB vai além de um simples registro partidário. Na prática, ela simboliza uma inflexão no cenário político do Espírito Santo. Mais do que isso, revela uma mudança nas relações que marcaram os governos de Paulo Hartung.

Durante os mandatos de 2003 a 2010 e, posteriormente, entre 2015 e 2018, os três exerceram a vice-governadoria em momentos distintos. Naquele período, o discurso central era o da reconstrução fiscal e institucional do Estado. Assim, consolidou-se uma agenda voltada ao ajuste das contas públicas, à recuperação da credibilidade administrativa e ao fortalecimento da máquina estatal. Ao mesmo tempo, formou-se um núcleo político que operava com forte articulação interna.

trajetórias que se cruzam na reconstrução

Ricardo Ferraço, vice no segundo mandato (2007–2010), ampliou sua atuação nas áreas de infraestrutura e agricultura. Além disso, consolidou pontes políticas relevantes dentro e fora do Estado. Atualmente, aparece como nome competitivo ao governo, com apoio de Renato Casagrande e presença constante nas pesquisas.

Por sua vez, Lelo Coimbra, vice no primeiro mandato (2003–2006), contribuiu na interlocução política e institucional. Como médico e parlamentar experiente, atuou na consolidação das primeiras medidas estruturais da gestão iniciada em 2003. Dessa forma, participou diretamente da fase inicial do projeto de reorganização administrativa.

Já César Colnago, vice no terceiro mandato (2015–2018), assumiu protagonismo em um período marcado por desafios institucionais. Também médico e ex-líder do governo na Assembleia Legislativa, reforçou a articulação política em momentos de tensão. Consequentemente, integrou a estratégia de estabilidade administrativa daquele ciclo.

Portanto, os três nomes não representam apenas cargos ocupados no passado. Ao contrário, simbolizam uma história política construída em parceria e sob um mesmo projeto de governo.

mudança de postura e rearranjo interno

No auge de sua liderança, Paulo Hartung era visto como um articulador capaz de unir correntes distintas. Naquele contexto, exercia papel central na construção de consensos. Havia convergência estratégica e diálogo permanente entre aliados.

Entretanto, o cenário atual apresenta outra configuração. Com o avanço das articulações para 2026, surgem disputas, reposicionamentos e novos alinhamentos. Nesse ambiente, antigas alianças se reorganizam. Além disso, o MDB passa por um processo de consolidação interna que redefine espaços de protagonismo.

A aproximação pública de Hartung com o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, por exemplo, não resultou em uma associação política explícita e contínua. Ao mesmo tempo, outros atores buscam preservar suas estratégias eleitorais de forma mais cautelosa.

a imagem que sintetiza o momento

Na convenção do MDB, Ricardo Ferraço foi reconduzido à presidência do partido. Lelo assumiu a 2ª vice-presidência e César Colnago a 3ª, ao lado de Euclério Sampaio como 1º vice. Dessa maneira, o partido estruturou uma composição que evidencia unidade interna entre os ex-vices.

A imagem dos três juntos, sem a presença do ex-governador, ganhou força simbólica. Afinal, ela traduz visualmente um novo momento político. Enquanto no passado a liderança orbitava em torno de Hartung, agora o foco recai sobre a reorganização do grupo sem sua participação direta.

Assim, o debate sobre liderança, diálogo e capacidade de articulação volta ao centro do cenário capixaba. Mais do que nomes, o eleitor observa movimentos, alianças e sinais. E, nesse contexto, a fotografia da convenção deixa de ser apenas um registro partidário e passa a representar um rearranjo político em curso no Espírito Santo.