A diferença entre um ladrão de galinha e um banqueiro poderoso como Valcora, do Banco Master, revela muito mais do que dois perfis criminais distintos. Mostra o abismo estrutural que separa pobres e ricos diante do sistema judicial brasileiro.

Enquanto o primeiro costuma permanecer meses preso por um delito de baixa complexidade e pequeno valor econômico, o segundo costuma deixar a prisão em menos de 48 horas. Essa disparidade escancara uma Justiça seletiva, moldada por privilégios e por fatores que operam em favor dos que podem pagar por bons advogados, influências e estratégias processuais eficientes.

Para compreender esse cenário, é preciso observar como a Justiça funciona na prática. De um lado, o pequeno infrator, geralmente sem assistência jurídica adequada, entra no sistema como culpado antecipadamente. Ele enfrenta uma cadeia superlotada, aguarda audiências demoradas e não consegue apresentar defesa técnica estruturada.

De outro lado, o acusado de grande poder econômico aciona equipes de advogados especializados, mobiliza contatos e utiliza instrumentos processuais sofisticados. Assim, enquanto o pobre enfrenta o peso bruto da lei, o rico experimenta sua versão mais branda.

Além disso, quando analisamos as decisões judiciais, percebemos que a desigualdade se amplia. A interpretação da lei varia conforme o réu. O pequeno ladrão é tratado como ameaça social, sem hesitação para o encarceramento. Já figuras de alto poder financeiro recebem decisões cautelosas, pautadas por supostos “excessos” no uso da prisão preventiva.

Mesmo quando seus crimes envolvem valores milionários e grande impacto público, o tratamento continua benevolente. A Justiça, portanto, opera em velocidades distintas, favorecendo quem pode pagar por brechas, teses complexas e intervenções imediatas.

Diante desse quadro, resta ao cidadão comum a sensação amarga de que a Justiça terrena é falha. Ela pune o pobre com rigor e trata o rico com deferência.

Essa percepção não é apenas uma crítica moral, mas um diagnóstico social. A desigualdade judicial é uma extensão direta da desigualdade econômica brasileira.

Por isso, quando o sistema falha em garantir equidade, muitos recorrem à ideia de que apenas a Justiça Divina é capaz de nivelar todos os homens. No fim, enquanto os tribunais continuarem operando sob pesos diferentes, a sociedade seguirá desconfiando da imparcialidade da toga e buscando, na fé, a justiça que o Estado insiste em negar.