Por Tiago Rocha
Dizem por aí que o mundo é grande, mas quem conhece o Sul do Espírito Santo sabe que o centro do universo tem coordenadas bem específicas: fica logo ali, às margens do Rio Itapemirim, onde as águas correm entre pedras que valem ouro. Neste 25 de março, Cachoeiro de Itapemirim completa 159 anos de uma história que começou com o desmembramento da antiga Vila de Itapemirim e, desde então, nunca mais parou de produzir manchetes, talentos e uma boa dose de misticismo.
Não é qualquer cidade que pode se gabar de ter sido uma das primeiras de todo o estado a acender as luzes públicas, lá em 1903. Enquanto o resto do Espírito Santo ainda tateava no escuro, a Usina da Ilha da Luz já mostrava que Cachoeiro nasceu para brilhar. E que brilho! Se a Linha Férrea trouxe o progresso sobre os trilhos, o povo tratou de colocar alma no lugar. Como explicar uma terra que coloca no mesmo “time” a voz romântica de Roberto Carlos, a crônica magistral de Rubem Braga e a poesia contestadora de Sérgio Sampaio? É um celeiro onde a cultura brota como capim. Tem espaço para o hino eterno de Raul Sampaio, o fervor gospel de Anderson Freire, a ousadia de Carlos Imperial e a sensibilidade de Newton Braga. E se você acha que parou por aí, ainda temos a liberdade de Luz del Fuego para lembrar que aqui o pensamento nunca teve amarras.
Na economia, a cidade é um gigante de braços abertos. Se hoje o mundo inteiro pisa em mármore e granito de alta qualidade, é porque as serras cachoeirenses foram moldadas pelo trabalho duro. É a terra onde a Viação Itapemirim de Camilo Cola ensinou o brasileiro a viajar, onde a Nassau levantou paredes e a Calçados Itapuã calçou gerações. É o lugar onde a Selita faz parte do café da manhã de toda família e onde a Fábrica de Pios transforma madeira em canto de pássaro, numa arte que só se vê por aqui. No esporte, Jair Bala tratou de levar o nome da cidade para os gramados mais famosos, provando que o talento cachoeirense também é bom de bola.
Essa vocação para o pioneirismo não se resume ao passado; ela pulsa no cotidiano de quem transita entre o Centro e o IBC. Cachoeiro é uma cidade de contrastes que se harmonizam: enquanto as imponentes jazidas de rochas ornamentais sustentam o título de maior polo de beneficiamento da América Latina, o artesanato de precisão dos pios de caça de Maurílio Coelho — únicos no mundo — prova que o detalhe também é nossa força.
É fascinante pensar que, dos mesmos trilhos da Leopoldina que escoavam o café colonial e uniam, em abraços e chegadas, pessoas e famílias por todo o Sul do Estado, hoje partem as ideias e os produtos que fazem de nós uma potência logística. Se aquela rede de afetos ferroviários agora só vive na saudade e nas boas recordações, sua estrutura permanece como alicerce do nosso desenvolvimento. Cruzar a Ponte de Ferro ou vislumbrar o imponente Pico do Itabira é ter a certeza de que a natureza caprichou no cenário tanto quanto o povo caprichou na construção dessa identidade vibrante e hospitaleira.
Na política, a “Capital Secreta” sempre foi protagonista, exportando lideranças que desenharam o destino do estado. Nomes como os saudosos Gilson Carone, Hélio Carlos Manhães, o carismático Glauber Coelho e o inesquecível Roberto Valadão são parte desse DNA de liderança. E por falar em história viva, como ignorar a figura de Theodorico Ferraço? Em seu quinto mandato, Ferraço é o exemplo de que em Cachoeiro a política é feita com paixão e longevidade. Entre as curvas do rio e o contorno do Frade e a Freira, Cachoeiro segue sendo esse lugar único, onde o cascudo do rio vira moqueca e o orgulho de ser “da terra” é a maior riqueza. Parabéns, Cachoeiro, por ser pequena no nome, mas infinita no coração de cada brasileiro que já cantarolou seus versos.
Afinal, como eternizou Rubem Braga — o Sabiá da Crônica —, “Modéstia à parte, eu sou de Cachoeiro de Itapemirim”, frase que atravessa gerações como um sopro de identidade e pertencimento. Porque o cachoeirense pode até sair de Cachoeiro de Itapemirim, seguir outros caminhos, ganhar o mundo, mas leva consigo o cheiro do rio, o som das pedras e a memória viva da terra natal; e assim, mesmo distante, é a cidade que insiste em permanecer nele — como poesia que não se esquece, como crônica que nunca termina.

