O prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), publicou artigo em A Gazeta no qual tenta apresentar a gestão da capital como símbolo de soberania administrativa. Entretanto, antes mesmo de analisar o conteúdo, chama atenção a forma. A escrita revela estrutura capenga, excesso de conectivos e raciocínio pouco lapidado.
Além disso, a insistência em períodos longos e repetitivos enfraquece a tese central. Assim, o texto que pretendia ensinar gestão pública acaba expondo limitações argumentativas e estilísticas incompatíveis com o peso político do cargo ocupado.
Fartura fiscal não é sinônimo de genialidade administrativa
No mérito, a narrativa de independência municipal soa deslocada da realidade econômica. Vitória possui arrecadação elevada, forte circulação de serviços e posição estratégica no sistema produtivo estadual. Portanto, o desempenho fiscal não decorre apenas de decisões recentes.
Em outras palavras, é difícil administrar mal uma capital onde o dinheiro literalmente transborda nos cofres públicos. Ainda assim, o verdadeiro desafio está em aplicar bem os recursos, com planejamento e visão de longo prazo. Nesse sentido, números positivos não podem ser confundidos com prova automática de excelência gerencial.
Autonomia não significa independência federativa
Por outro lado, ao associar investimentos próprios à soberania política, o prefeito simplifica o funcionamento do pacto federativo. Municípios dependem de transferências, cooperação institucional e integração econômica regional. Dessa forma, autonomia fiscal não equivale à independência proclamada no artigo.
Consequentemente, a tentativa de transformar a experiência de Vitória em modelo universal ignora a diversidade dos 78 municípios capixabas. Enquanto a capital concentra riqueza e serviços, muitas cidades enfrentam limitações estruturais históricas e dependem diretamente do apoio estadual.
Exemplos do passado e a comparação inevitável
Além disso, o discurso remete a antigas bandeiras de municipalização defendidas por lideranças políticas do passado. A comparação surge naturalmente. Hermes Laranja, por exemplo, conduziu a cidade com eficiência reconhecida em seu tempo.
Da mesma forma, Paulo Hartung, beneficiado por ampla disponibilidade de recursos, promoveu intervenções urbanas relevantes e modernizou áreas estratégicas da capital. Contudo, ambos alcançaram resultados sem recorrer a textos de tom político-publicitário ou a narrativas de autoproclamação administrativa.
Ambição estadual e contradição política
Ainda assim, existe uma contradição evidente. Ao projetar ambições de governar o Espírito Santo, Pazolini sustenta um discurso de autonomia municipal quase absoluta. Entretanto, quem pretende administrar um estado precisa compreender a lógica interdependente do sistema político e do regime econômico constitucional.
Portanto, não se governa um ente federativo ampliado apenas com retórica de independência ou com postura de enfrentamento institucional. Pelo contrário, a construção de soluções exige cooperação, articulação e visão sistêmica.
Entre a vitrine e a realidade
Por fim, os dados fiscais apresentados são reais e merecem reconhecimento. No entanto, transformá-los em prova de soberania revela mais estratégia de posicionamento político do que reflexão profunda sobre gestão pública.
Assim, permanece a constatação incômoda: abundância de recursos facilita qualquer administração. Logo, o verdadeiro teste de liderança está em governar sob escassez e promover equilíbrio regional duradouro, tarefa que exige mais do que rankings e discursos.
Precisa aprender com o governador do seu partido Tarcísic de Freita, São Paulo.
