PF enfrenta terceiro júri por morte de homem em festa de barco

Ricardo Matias Rodrigues foi condenado a 24 anos em 2018, mas decisão foi anulada pelo STJ por falha processual

Foto: Reprodução/Facebook -

O policial federal Ricardo Matias Rodrigues, 53 anos, vai a júri pela terceira vez pelo homicídio do bancário Cláudio Muller, morto a tiros durante uma festa em um barco em 2016. O Tribunal do Júri de Brasília marcou o julgamento para 18 de março, às 9h.

Em 2018, o Tribunal do Júri havia condenado Matias a 24 anos, nove meses e 15 dias de prisão. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou a decisão em 2019, citando falhas processuais e “ofensa aos princípios da correlação, da plenitude de defesa e do contraditório”. Após a anulação, a Justiça revogou a prisão domiciliar de Matias. O novo julgamento chegou a ser marcado para 16 de dezembro de 2025, mas a ausência de duas testemunhas essenciais provocou adiamento.

Atualmente, Matias está em Recife (PE), cuidando da mãe, que sofre de demência causada pela doença de Alzheimer. A Justiça autorizou que ele participe do júri por videoconferência.

Apesar do processo, Matias permanece ativo na Polícia Federal, lotado na Diretoria de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor). Entre novembro de 2020 e fevereiro de 2025, ele recebeu mais de R$ 22 mil em gratificações e diárias por ministrar cursos de gestão de crise e segurança em cidades como Brasília (DF), Goiânia (GO), Paracatu (MG) e Eunápolis (BA). Os pagamentos fazem parte da Gratificação por Encargo de Curso ou Concurso (GECC). Segundo a tabela salarial da PF, um agente especial recebe cerca de R$ 21.987,38, podendo chegar a R$ 25.250 com reajustes e adicionais por tempo de serviço.

Formado em Ciências Econômicas, Matias possui especialização em inteligência competitiva e contrainteligência corporativa, além de MBA em gerenciamento de crises.

O crime

O policial responderá por homicídio duplamente qualificado, motivado por futilidade e uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Ele também atirou contra Fábio Cunha, que sobreviveu após levar um tiro no peito. Rodrigues usou uma pistola Glock 9mm, mas nenhum policial realizou o flagrante na hora.

Testemunhas divergem nos detalhes, mas concordam que o conflito começou após desentendimentos entre mulheres na festa. A esposa de Cláudio afirmou que a companheira do policial a agrediu. Cláudio e Fábio intervieram, e Rodrigues alegou que sacou a arma para se proteger. Ele disse que atirou quando os supostos agressores não obedeceram à ordem de afastamento, disparando um tiro no abdômen de cada um e pedindo socorro.

Rodrigues se apresentou à 5ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), entregou a arma e afirmou que agiu em legítima defesa. Testemunhas contestam sua versão e dizem que não o viram se identificar como policial. A defesa afirma que ele consumiu apenas “duas ou três taças de vinho” durante a festa.

Cláudio Muller era assessor empresarial de tecnologia da informação do Banco do Brasil. Nascido no Rio de Janeiro, foi transferido para Brasília em 1998. Ele deixou duas filhas, esposa e um enteado. Fábio Cunha havia pedido indenização de R$ 800 mil, mas a Justiça fixou o valor em R$ 50 mil.