Brasileiros vivem pesadelo na Ásia após falsa promessa de emprego

Dois paulistas foram mantidos em cárcere em Myanmar, sofreram agressões e trabalharam até 15 horas por dia

- Itamaraty emite alerta.

O Ministério das Relações Exteriores emitiu um alerta sobre o aumento de casos de tráfico de brasileiros para o Sudeste Asiático com fins de exploração laboral. De acordo com o Itamaraty, a região se consolidou como principal foco desse tipo de crime, o que já mobiliza embaixadas e consulados na Ásia.

Além disso, dois jovens de São Paulo foram resgatados recentemente em Myanmar após passarem meses em cárcere privado. Eles relataram agressões físicas, ameaças constantes e jornadas exaustivas de trabalho.

Redes sociais como porta de entrada

Os aliciadores utilizam principalmente as redes sociais para atrair vítimas. Em geral, oferecem vagas em supostos “call centers” ou empresas de tecnologia instaladas em países como Camboja, Tailândia, Myanmar e Laos.

As propostas prometem salários elevados, comissões por metas e até passagens aéreas custeadas pelos recrutadores. No entanto, ao chegarem ao destino, os brasileiros enfrentam uma realidade completamente diferente.

As vítimas relatam que os criminosos as obrigam a aplicar golpes virtuais, como fraudes com criptomoedas, esquemas de apostas on-line e criação de perfis falsos para extorsão. Em alguns casos, os grupos também forçam os trabalhadores a recrutar novos brasileiros para ampliar o esquema.

Dificuldade para voltar ao Brasil

Mesmo quando conseguem deixar os complexos onde permanecem confinadas, as vítimas encontram obstáculos para retornar ao país. Muitas vezes, o visto já está vencido. Dessa forma, precisam obter autorização das autoridades locais e pagar multas por permanência irregular.

Por isso, o Itamaraty reforça que brasileiros não devem aceitar propostas de trabalho que prometam ganhos elevados, contratação imediata ou intermediação informal no Sudeste Asiático.

Além do alerta, o governo federal produziu uma cartilha sobre trabalho no exterior, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Também lançou um folheto específico para quem pretende viajar à região.

Relato de cárcere e tortura

Luckas “Kim” Viana, de 31 anos, e Phelipe de Moura, de 26, viveram na prática o drama do tráfico internacional. Moradores de São Paulo, eles aceitaram propostas consideradas “irrecusáveis” e acabaram integrando, sob ameaça, um esquema global de crimes cibernéticos.

Durante quatro meses, os dois sofreram agressões físicas e trabalharam até 15 horas por dia. Além disso, tentaram fugir ao menos duas vezes.

A libertação ocorreu em 9 de fevereiro, quando escaparam junto com um grupo de 85 pessoas, de 50 nacionalidades. A operação contou com apoio da ONG The Exodus Road. No dia 19, ambos desembarcaram no Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde reencontraram familiares.

Como evitar o golpe

As vítimas alertam que os aliciadores exploram o lado emocional e vendem a ideia de uma oportunidade única. Portanto, especialistas recomendam:

  • Exigir endereço completo e verificável da empresa;
  • Solicitar fotos reais do local de trabalho;
  • Realizar videochamadas com os supostos contratantes;
  • Desconfiar de promessas de altos salários com contratação imediata.

Como denunciar

No Brasil, denúncias de tráfico de pessoas podem ser feitas pelo Disque 100 ou pelo Ligue 180. Também é possível acionar a Coordenação-Geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes, vinculada ao Ministério da Justiça.

Além disso, o Portal Consular do Itamaraty reúne orientações e alertas atualizados sobre ofertas suspeitas de trabalho no exterior.