A expressão “vitória de Pirro” define uma conquista obtida a um custo tão elevado que compromete qualquer benefício real. No entanto, analistas internacionais avaliam que nem mesmo esse conceito descreve com precisão a situação da Rússia na guerra contra a Ucrânia. Embora Moscou tenha avançado em partes do território ucraniano, o preço humano, econômico e geopolítico imposto ao país levanta dúvidas sobre qualquer narrativa de triunfo.
Essa é a avaliação do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), instituto sediado em Washington e referência em análises de segurança e geoestratégia. Em estudo publicado no fim de janeiro, intitulado “A guerra implacável da Rússia na Ucrânia, Perdas enormes e pequenos ganhos para uma potência decadente”, os pesquisadores analisaram dados territoriais, militares e econômicos para questionar o discurso do presidente Vladimir Putin.
Segundo o relatório, “uma análise atenta dos dados sugere que a Rússia está longe de estar vencendo” e aponta sinais de declínio estratégico da potência.
Como o conflito começou
As tensões entre Kiev e Moscou remontam a 2014, quando protestos populares na Praça Maidan derrubaram o então presidente ucraniano Viktor Yanukovitch, aliado do Kremlin. Em resposta, a Rússia apoiou movimentos separatistas e anexou a Crimeia após um referendo não reconhecido por Ucrânia e comunidade internacional.
Além disso, Moscou passou a apoiar milícias pró-Rússia na região do Donbass, no leste ucraniano. Desde então, Donetsk e Luhansk permanecem sob forte influência russa.
Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia iniciou uma ofensiva em larga escala por terra, mar e ar contra o território ucraniano, ampliando o conflito para uma guerra aberta que agora completa quatro anos.
Estratégia de desgaste
Desde os primeiros meses da invasão, as forças russas conquistaram cidades estratégicas como Mariupol e Melitopol. No entanto, o conflito evoluiu para uma “guerra de atrito”, estratégia na qual ambos os lados buscam desgastar o inimigo ao máximo, mesmo com avanços territoriais mínimos.
Historicamente, a Rússia já utilizou esse modelo em outros confrontos, aproveitando seu vasto território, rigor climático e grande contingente populacional. Um exemplo clássico foi a Batalha de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Vermelho resistiu à invasão nazista ao custo de milhares de vidas.
Perdas elevadas e ganhos limitados
De acordo com o CSIS, a Rússia controla atualmente cerca de 120 mil km² da Ucrânia, o equivalente a aproximadamente 20% do território do país. Apesar disso, os avanços recentes são considerados modestos.
O estudo aponta que, mesmo mantendo ofensivas constantes, Moscou conquistou apenas 0,6% do território ucraniano em 2024 e 0,8% em 2025. Além disso, as tropas russas avançaram a um ritmo médio de 15 a 70 metros por dia em áreas estratégicas.
Em contrapartida, as perdas humanas são expressivas. O CSIS estima que as forças russas sofreram cerca de 1,2 milhão de baixas entre mortos, feridos e desaparecidos, desde fevereiro de 2022. A proporção de perdas russas em relação às ucranianas varia entre 2 para 1 e 2,5 para 1.
No campo econômico, o relatório também identifica sinais de desgaste. Embora a economia russa tenha demonstrado resiliência frente às sanções ocidentais, o crescimento desacelerou para cerca de 0,6% em 2025, enquanto o setor manufatureiro enfrenta retração.
Número de mortos
Os dados sobre vítimas divergem conforme a fonte. A Organização das Nações Unidas (ONU) contabiliza ao menos 15.172 civis ucranianos mortos desde o início da guerra, número que pode ser maior.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou, em fevereiro de 2026, que 55 mil soldados morreram no conflito. Já o CSIS estima até 140 mil baixas militares do lado ucraniano.
No caso russo, Moscou não divulga números oficiais. A BBC calcula pelo menos 160 mil mortos militares, enquanto o CSIS projeta cerca de 325 mil mortes entre fevereiro de 2022 e dezembro de 2025.
Somando civis e militares de ambos os lados, o total de baixas pode chegar a 1,8 milhão ou até 2 milhões até o fim de março, segundo o instituto.
Impasse diplomático
Enquanto o conflito segue no campo de batalha, as negociações diplomáticas enfrentam obstáculos. Desde que reassumiu a presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, Donald Trump tenta intermediar um acordo entre as partes. Até o momento, porém, as conversas mediadas por Washington não produziram resultados concretos.
A Ucrânia, liderada por Volodymyr Zelensky, resiste à ideia de ceder territórios ocupados pela Rússia. Por outro lado, Moscou mantém posições firmes sobre as áreas sob seu controle.
Quatro anos após o início da invasão em larga escala, o conflito permanece sem desfecho claro. Embora a Rússia mantenha parte significativa do território ucraniano, o custo humano e econômico elevado sustenta o debate internacional sobre quem, de fato, estaria vencendo a guerra.
