Fertilização in vitro cresce no Brasil, mas segue inacessível para a maioria no SUS

Setor da medicina reprodutiva deve ter alta de 23% este ano, movimentando mais de R$ 3 bilhões; alto custo do procedimento ainda é barreira para muitas pessoas

- Setor de medicina reprodutiva tem cerca de 200 clínicas, como a Origen BH Foto: Fred Magno/ O Tempo

Engravidar é, para muitas pessoas, um dos maiores projetos da vida adulta. O desejo de formar uma família, ter um filho e construir novas histórias atravessa gerações. No entanto, esse sonho tem se tornado cada vez mais difícil para um número crescente de brasileiros. O avanço da idade, condições de saúde, tratamentos médicos agressivos e causas ainda desconhecidas colocaram a infertilidade no centro da realidade de milhões de pessoas no país.

Nesse contexto, a fertilização in vitro (FIV) tornou-se um dos segmentos da saúde que mais crescem no Brasil. Uma pesquisa da Redirection International, divulgada pela Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), aponta que o setor deve crescer 23% em 2026, movimentando mais de R$ 3 bilhões. O crescimento reflete avanços tecnológicos e aumento da demanda, mas também escancara um contraste: a reprodução assistida no Brasil é, majoritariamente, um serviço privado, caro e distante da maioria da população.

O Brasil lidera a realização de FIV na América Latina, concentrando mais da metade dos procedimentos da região. Ainda assim, o acesso permanece restrito. Segundo o presidente da SBRA, Roberto Antunes, cerca de 95% do mercado é privado, com aproximadamente 200 clínicas especializadas. “Os pacientes precisam arcar com todos os custos”, afirma.

Os valores elevados são explicados pela complexidade do tratamento, que envolve medicamentos caros, estrutura laboratorial sofisticada, congelamento de embriões e, muitas vezes, procedimentos cirúrgicos. “Tudo isso ocorre com pouco suporte do SUS e praticamente nenhum dos planos de saúde”, completa Antunes.

Atualmente, o Brasil realiza cerca de 65 mil ciclos de fertilização por ano, número considerado insuficiente. “Não atendemos nem 10% da demanda. Pelo tamanho da população, deveríamos realizar mais de 300 mil ciclos anuais”, projeta o especialista, que defende subsídios governamentais para ampliar o acesso.

Mudança de perfil e adiamento da maternidade

Além do crescimento do mercado, o perfil de quem busca a reprodução assistida também mudou. Marcos Sampaio, diretor da Clínica Origen BH, observa que a relação com a parentalidade se transformou. “Hoje há mais pessoas que optam por não ter filhos ou por ter apenas um”, relata.

O adiamento da maternidade impacta diretamente os tratamentos. A média de idade das mulheres que chegam à primeira consulta é de 37 a 38 anos, faixa em que a fertilidade feminina já começa a diminuir. Por isso, o congelamento de óvulos se tornou uma das principais demandas, especialmente entre mulheres que priorizam carreira ou estabilidade antes da maternidade.

Mesmo clínicas voltadas às classes A e B enfrentam desafios para ampliar o acesso. Algumas adotam programas de desconto para famílias de baixa renda. Ainda assim, o tempo entre a descoberta da infertilidade e a busca por ajuda médica pode chegar a oito anos, o que reduz as chances de sucesso.

Alternativas fora do SUS

Com o custo de uma única tentativa girando em torno de R$ 30 mil, muitas famílias recorrem a alternativas como ações judiciais para liberar o saque do FGTS. Embora a legislação não preveja explicitamente a fertilização in vitro como motivo para saque, decisões judiciais têm reconhecido o direito com base no planejamento familiar.

Outra opção em crescimento é o consórcio de serviços, que permite diluir os custos ao longo do tempo. Segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), a modalidade tem atraído famílias que buscam uma alternativa financeiramente mais acessível.

A dura realidade no SUS

Para quem depende exclusivamente do SUS, o maior obstáculo é a espera. Em Minas Gerais, por exemplo, o Hospital das Clínicas da UFMG é o único serviço público a oferecer fertilização in vitro. O centro realiza cerca de 180 ciclos por ano, para uma fila que pode chegar a quatro anos.

Embora o procedimento seja gratuito, os medicamentos não são fornecidos pelo SUS, o que gera custos adicionais entre R$ 4 mil e R$ 8 mil por ciclo. Histórias como a da comerciária Camila Eller, que após anos de tentativas e dificuldades conseguiu engravidar pelo SUS, ilustram tanto os desafios quanto a esperança de quem insiste.

Queda da natalidade e desafios futuros

O debate sobre acesso à reprodução assistida também se cruza com a demografia brasileira. O país registra os menores números de nascimentos em cerca de 50 anos e enfrenta um rápido envelhecimento populacional. Para especialistas, ampliar o acesso à fertilização não resolverá sozinho a queda da natalidade, mas pode garantir o direito ao planejamento familiar e reduzir desigualdades.

Enquanto o mercado privado cresce, o desafio permanece: transformar a fertilização in vitro em uma política de saúde mais inclusiva, acessível e alinhada às necessidades da população brasileira.

 Marcos Sampaio, diretor da Clínica Origen BH, uma das pioneiras no setor de medicina reprodutiva – Foto: Fred Magno/ O Tempo 

FONTE: O TEMPO