Seis óbitos suspeitos de pancreatite relacionados a canetas de emagrecimento

Especialistas alertam para uso sem indicação e acompanhamento médico.

Foto: Augusto Castro/Primeira Página -

Desde 2018, foram registrados no Brasil seis óbitos suspeitos e 225 casos suspeitos de pancreatite associados ao uso de canetas para emagrecimento, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As informações constam no sistema VigiMed, além de relatos de estudos clínicos realizados com esses medicamentos.

Os casos envolvem diferentes agonistas do GLP-1, como semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida. Recentemente, o tema ganhou repercussão internacional após um alerta emitido no Reino Unido, que apontou 19 mortes relacionadas ao uso desses medicamentos no país.

Autoridades de saúde e especialistas ressaltam que os dados não indicam necessidade de interrupção do uso das canetas, mas reforçam a importância de prescrição médica responsável e acompanhamento constante. Segundo os profissionais, o medicamento é eficaz e seguro quando usado corretamente, mas pode oferecer riscos se administrado de forma inadequada ou adquirido de fontes não confiáveis.

Casos registrados no Brasil

Conforme a Anvisa, as notificações de pancreatite ocorreram em pacientes de São Paulo, Paraná, Bahia e Distrito Federal. Entre esses casos, seis resultaram em morte, embora os estados envolvidos não tenham sido detalhados.

⚠️ Vale destacar que os números são classificados como “suspeitos”, já que precisam passar por análise técnica para confirmação. Além disso, especialistas afirmam que o total real pode ser maior, pois a notificação não é obrigatória. Ou seja, médicos ou hospitais não são obrigados a registrar os casos de pancreatite associada aos medicamentos GLP-1.

Entre os medicamentos envolvidos estão Wegovy, Victoza, Trulicity, Saxenda, Xultophy, Ozempic, Rybelsus e Mounjaro. A Anvisa esclarece que nem todos os casos estão comprovadamente ligados às marcas comerciais, pois existem relatos de produtos falsificados, irregulares ou manipulados. Todos os casos estão em investigação.

Riscos e precauções

O risco de pancreatite é conhecido e consta nas bulas de alguns medicamentos da classe. Por exemplo, a bula do Mounjaro alerta que a pancreatite aguda é uma reação adversa incomum, mas possível.

Ainda não há como determinar se os casos são consequência direta do uso das canetas ou de fatores de risco preexistentes, como obesidade e diabetes, que aumentam naturalmente a probabilidade de pancreatite. Por isso, os pacientes que utilizam esses medicamentos devem fazer acompanhamento médico regular, incluindo monitoramento da saúde pancreática.

Não há dados oficiais sobre o número total de usuários no Brasil, dificultando calcular a proporção de pessoas afetadas. Estima-se que apenas o mercado ilegal movimenta cerca de R$ 600 milhões por ano.

Medidas da Anvisa

Em abril de 2025, a Anvisa passou a exigir retenção de receita médica para a venda desses medicamentos, garantindo que o uso seja avaliado por um profissional de saúde. Até o momento, essa medida tem se mostrado eficaz como forma de controle, mas a agência não descarta novas ações caso sejam identificados riscos adicionais.

O que dizem as empresas

A Eli Lilly afirmou que monitora os casos de pancreatite e que o risco está registrado na bula dos medicamentos. A bula do Mounjaro orienta pacientes a interromper o tratamento e informar o médico se houver suspeita de pancreatite.

A Novo Nordisk reforçou que todos os medicamentos da classe GLP-1 possuem advertências sobre efeitos no pâncreas, e que pacientes devem ser acompanhados por profissionais de saúde.

Em geral, todas as terapias baseadas em incretina (agonistas do GLP-1, agonistas duais GIP/GLP-1 e inibidores de DPP-4) incluem a pancreatite aguda como reação adversa potencial. Pacientes com histórico da doença ou fatores de risco, como diabetes e obesidade, devem ter atenção redobrada e interromper o uso se houver suspeita de inflamação pancreática.