O que é looksmaxxing, subcultura que impõe beleza “hipermasculina”

O movimento looksmaxxing fala sobre beleza hipermasculina e autoestima a partir da validação; psicólogos alertam sobre risco da subcultura

- Pexels

Uma nova tendência que está se espalhando no TikTok tem como alvo jovens vulneráveis. O fenômeno looksmaxxing é inspirado no filme Psicopata Americano (2000) e visa meninos que desejam mudar sua aparência para se tornarem mais atraentes e obterem aceitação social.

O conceito de looksmaxxing gira em torno da crença de que homens de verdade devem “ostentar” um conjunto específico de características físicas: queixo quadrado; olhos amendoados e profundos, também conhecidos como “olhos de caçador”; estatura alta, idealmente entre 1,85 m e 1,93 m; físico musculoso, penteado estilo Hollywood e pele sem acne.

Grande parte do conteúdo sobre looksmaxxing enfatiza a importância de “otimizar” a puberdade, alegando que os meninos têm a maior influência sobre sua aparência durante esse período de crescimento biológico.

Avançar em direção a essas características idealizadas (conhecido como “ascensão”) ajuda a aumentar o “valor de mercado sexual” (VMS) dos meninos, que se refere à probabilidade de as mulheres os considerarem atraentes.

Existem também subnichos mais específicos dentro de looksmaxxing. Estes incluem auramaxxing (estratégias para melhorar o status social), smellmaxxing (uso de colônia para atrair mulheres), moneymaxxing (maneiras de ganhar dinheiro para atrair mulheres), dickmaxxing (estratégias para aumentar o comprimento ou a circunferência do pênis) e starvemaxxing (restringir a dieta para perder peso).

Psicólogo faz alerta contra movimento looksmaxxing

O psicólogo Vladimir Melo aponta que esse tipo de movimento cria uma baixa tolerância nas crianças para o enfrentamento da realidade. “As crianças passam a não suportar imagens imperfeitas e a ter uma relação distorcida com a própria imagem.”

“Esses jovens podem desenvolver uma relação de rejeição com a realidade, optando por se relacionar em ambientes nos quais acreditem controlar a aparência”, comenta. “As relações espontâneas vão dando lugar a um espaço marcado pela performance. Precisam atuar e impressionar para se sentirem valorizados, atraindo likes e elogios.”

Já Juliana Barbato, psicóloga e especialista em desenvolvimento infantil, salienta que compreender o impacto de movimentos como o looksmaxxing exige que olhemos para a adolescência como um período de vulnerabilidade neurológica e social profunda, em que o pertencimento ao grupo é uma questão de sobrevivência emocional.

“Quando um jovem mergulha nessas subculturas, a construção da sua identidade sofre um processo de redução; ele deixa de ser um sujeito em busca de valores, talentos e propósito para se tornar um objeto em constante monitoramento. A autoestima, que deveria ser um processo interno de autoconhecimento, é sequestrada por uma validação externa baseada em métricas cruéis e inalcançáveis”, acrescenta a profissional.

De onde surgiu?

A origem do termo looksmaxxing vem das comunidades on-line de incels (celibatários involuntários) ou redpill e sua visão distorcida da dinâmica de gênero moderna. Os incels se autodefinem como pouco atraentes e sem sucesso em relacionamentos românticos.

Como resultado, os incels direcionam a culpa e o ódio às mulheres por, supostamente, os “emascularem” ao não as acharem atraentes. O conceito de looksmaxxing surgiu da ideia de que os jovens precisam melhorar ou “maximizar” sua aparência física para serem atraentes para as mulheres e respeitados como homens por seus pares.

Como a obsessão pela aparência está alimentando uma crise de saúde mental

O efeito do looksmaxxing na saúde mental e no bem-estar dos meninos pode ser muito mais destrutivo. O psicólogo Vladimir Melo destaca que movimentos como esse propostos nas redes sociais podem gerar uma necessidade obsessiva de investimentos em procedimentos estéticos e cirurgias plásticas.

“Há uma negação dos afetos e de outros valores que criam conexões profundas. Portanto, os jovens ficam sujeitos a relações mais superficiais”, explica Vladimir.Reprodução.

Para o expert, pessoas que adotam essa perspectiva podem desenvolver comportamentos agressivos contra tudo o que foge a um padrão de beleza.

“Podem discriminar ou cometer violência contra pessoas que tenham uma aparência diferente, até mesmo idosos. Essa fixação em um padrão estético divide o mundo entre o que é bom e bonito e ruim e feio. Podemos perceber esse dilema no filme Pequena Miss Sunshine, em que a criança tem medo de ser perdedora porque não se enquadra nesse padrão.”

Segundo Juliana, essa dinâmica abre caminho para danos psicológicos severos, pois o valor próprio passa a ser mediado por uma lente de imperfeição constante. ” Ao enxergar a si mesmo por meio de fragmentos, o ângulo da mandíbula, a inclinação dos olhos ou a textura da pele, o adolescente desenvolve uma percepção distorcida da realidade, frequentemente resultando em quadros de dismorfia corporal e transtornos de ansiedade.”

Ele complementa que o sofrimento, então, surge do abismo entre o corpo real, que é biológico e imperfeito, e o padrão digital, que é filtrado e muitas vezes violento em suas exigências. “Quando o jovem não atinge o ideal proposto, o sentimento não é apenas de frustração estética, mas de falha existencial, como se sua própria humanidade fosse insuficiente por não se adequar a um algoritmo”, emenda Juliana.

Tentativas de mudar seus corpos

Uma das técnicas de softmaxxing mais conhecidas é um exercício com a língua chamado “mewing” , promovido nas redes sociais. Influencers defendem que a técnica pode criar “melhorias faciais”, incluindo alinhamento dos dentes, acentuação das maçãs do rosto, definição do maxilar, endireitamento natural do nariz, redução de rugas e melhora das vias respiratórias.

Outra técnica de softmaxxing que está ganhando popularidade é o uso de goma de mascar para exercícios, projetada para ser extra dura como forma de exercitar a mandíbula e criar um contorno facial mais definido.

Uma prática comum em fóruns de “aprimoramento da aparência”, como looksmax.org e r/Mewing, é que adolescentes e pré-adolescentes publiquem medidas detalhadas de seus corpos e anexem várias fotos de todos os ângulos de seus rostos e corpos para incentivar outros a avaliar seu valor no mercado sexual e oferecer recomendações sobre como melhorar sua aparência.

Pesquisas mostram que esse conteúdo hipermasculino e outros semelhantes nas redes sociais ainda podem afetar negativamente a saúde mental dos adolescentes. Em 2023, o Departamento de Saúde Pública dos EUA afirmou que o risco de ansiedade e depressão dobra em adolescentes que passam mais de três horas por dia nas redes sociais. E, na mesma pesquisa, quase metade dos adolescentes afirmou que as redes sociais os fazem sentir pior em relação aos seus corpos.

Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, o maior risco de normalizar esses discursos é a consolidação de uma visão de mundo onde o afeto e o sucesso são condicionados à aparência.

“Ao associar aceitação social à adequação estética, ensinamos aos jovens que as relações humanas são transacionais e baseadas no mérito visual, o que esvazia a capacidade de intimidade e empatia”, destaca Juliana. “Isso gera um isolamento profundo, pois mesmo aqueles que conseguem ‘vencer’ no jogo da aparência vivem sob o medo constante de perder seu status, enquanto os que se sentem excluídos podem internalizar um desamparo aprendido, acreditando que estão destinados à solidão por questões genéticas.”

FONTES: METROPOLES