A recente publicação de um artigo coassinado por Paulo Hartung e Octaciano Neto, em um jornal tradicional do Espírito Santo, sobre cafeicultura, revela muito mais do que reflexões sobre o agro capixaba. Na prática, o texto funciona como um retrato involuntário de isolamento político, perda de influência e esgotamento de capital simbólico do ex-governador.
Após anos fora de mandatos eletivos e distante do centro das decisões, Hartung tenta manter alguma relevância no debate público. No entanto, o problema não está no ato de escrever. Está, sobretudo, na escolha do parceiro. Nesse contexto, a presença de Octaciano Neto é tudo, menos casual.
A escolha do coautor como sintoma de declínio
Octaciano foi secretário de Agricultura no terceiro mandato de Hartung. Contudo, não construiu densidade política própria, tampouco trajetória autônoma. Ao contrário, carrega um histórico marcado por controvérsias, investigações e irrelevância pública.
Associar-se a ele não amplia alcance nem qualifica o debate. Pelo contrário, reduz o peso do discurso. Afinal, quem ainda dispõe de prestígio escolhe pares sólidos, técnicos reconhecidos ou figuras neutras. Hartung, entretanto, optou por um operador periférico, de passado nebuloso e sem legitimidade social.
Esse movimento expõe, de forma clara, a escassez de alternativas reais ao seu redor.
O ostracismo após o poder
Desde 2018, o ostracismo político de Hartung se tornou evidente. Sem partido forte, com articulação frágil no Espírito Santo e presença secundária no cenário nacional, suas aparições públicas se restringem a artigos esporádicos e cargos laterais em entidades setoriais, como a Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ).
Para quem governou o Estado por três mandatos e teve projeção nacional, trata-se de um encolhimento expressivo. Ainda assim, a tentativa de manter visibilidade persiste, mesmo que ao custo da própria imagem.
Nesse sentido, a parceria com Octaciano não é neutra. Ela reforça a percepção de declínio. Ao se colar a uma figura irrelevante e manchada, Hartung compromete a aura de gestor austero que cultivou por décadas. Mais do que isso, revela dependência e vulnerabilidade política.
Uma aliança baseada no ressentimento
A aproximação entre Hartung e Octaciano nasce, essencialmente, de um ressentimento comum contra Renato Casagrande. Foi esse ódio compartilhado que serviu de passaporte para a reaproximação. Fora disso, não há projeto, visão estratégica ou consistência programática.
Octaciano Neto é um personagem amorfo. Não possui ideologia definida, tampouco valores claros. Atua como operador circunstancial, transitando de um lado para outro conforme a conveniência do momento.
Antes, orbitou o senador Magno Malta, atuando em questões financeiras e lobby de baixa relevância. Posteriormente, migrou para o entorno de Hartung, sem qualquer coerência política ou compromisso institucional.
Passado administrativo marcado por investigações
Durante sua passagem pela Secretaria de Agricultura, entre 2015 e 2018, Octaciano teve sua gestão alvo da Operação Nexus, conduzida pelo GAECO do Ministério Público do Espírito Santo. A investigação apurou formação de cartel, fraudes em licitações e irregularidades em obras públicas.
Além disso, ele responde a pelo menos cinco ações de improbidade administrativa na Justiça capixaba. Entre elas, destaca-se a ação nº 014918-74.2019.8.08.0024, que trata de lavagem de valores e fraudes em obras, e a ação nº 0004069-09.2020.8.08.0024, que aponta danos ao erário estimados em quase R$ 4 milhões na construção da Barragem Floresta.
Portanto, não se trata de ruído político, mas de fatos públicos e documentados.
Fracasso empresarial e dependência do poder público
No campo empresarial, o histórico é igualmente frágil. O negócio do cordeiro Baby Black, inflado durante sua permanência na Seag, simplesmente desapareceu após sua saída do cargo. Não deixou legado, não criou mercado e não se sustentou sem o apoio institucional do Estado.
Isso demonstra que não havia empreendedorismo real, mas dependência direta do poder público. Sem o cargo, o empreendimento evaporou.
Posteriormente, incapaz de se manter no Espírito Santo, Octaciano foi levado a São Paulo com apoio de Hartung para atuar na SUNO. Esse episódio levanta questionamentos inevitáveis sobre os critérios de compliance e integridade adotados pela empresa ao incorporá-lo aos seus quadros.
Contradições e ruptura com antigos aliados
Outro ponto que chama atenção é a mudança radical de postura de Hartung em relação a antigos aliados. Antes de desenvolver animosidade contra Ricardo Ferraço, o próprio ex-governador declarava publicamente que Ricardo havia sido o melhor secretário de Agricultura de sua primeira gestão.
Hoje, no entanto, sequer o cumprimenta. Ataca Ricardo e Renato Casagrande de forma recorrente. Essa inversão revela um padrão. Ex-aliados se transformam em inimigos conforme a conveniência política ou pessoal.
A escolha de Octaciano segue exatamente essa lógica. Não é afinidade programática. É ressentimento compartilhado.
Um legado em erosão
A parceria expõe uma fissura profunda no legado de Paulo Hartung. O ex-governador, que sempre evitou escândalos diretos e cultivou a imagem de rigor fiscal e institucional, agora se associa publicamente a um operador sem substância, sem reputação e sem relevância própria.
Em um Estado onde o agronegócio é estratégico, essa escolha não pode ser tratada como descuido editorial. Trata-se, sobretudo, de um sintoma claro de desespero por visibilidade e de opções políticas cada vez mais escassas.
O artigo como espelho do declínio
No fim das contas, o texto publicado não é sobre cafeicultura. É um espelho cruel. Reflete o declínio de quem já esteve no topo do tabuleiro político capixaba e hoje se contenta com parcerias de fundo de quintal.
Desde o terceiro mandato, Hartung foi alertado sobre os problemas de conduta de Octaciano. Ainda assim, preferiu fazer vista grossa. Foi ali que começou a erosão de sua autoridade moral acumulada nos dois primeiros governos.
Por fim, suas companhias atuais definem seu novo status político. Marginalizado, ressentido e isolado. O declínio teve início no terceiro mandato. O mandato do ódio.
Para sair desse ostracismo, Hartung precisaria de uma reinvenção profunda. Que rompa com associações degradantes. Que reconstrua pontes com atores reais. E que recupere, se ainda for possível, a estatura que um dia teve.
Hoje, mais do que seus artigos, são suas escolhas que falam por ele.
