O Brasil entrou em um estágio perigoso de exaustão cívica. Não se trata apenas de frustração política, mas de um esgotamento físico e psicológico coletivo. Ao longo dos últimos anos, a população foi às ruas, protestou, denunciou e cobrou. Entretanto, apesar de todo esse esforço, a impunidade seguiu intacta. Como resultado, o sistema permaneceu praticamente intocado.
Dessa forma, a sensação dominante passou a ser de inutilidade da reação popular. O cidadão olha para o poder e não enxerga consequência. Por isso, em vez de ocupar praças e avenidas, recolheu-se para dentro de casa.
Da indignação às telas
Nesse novo cenário, a militância migrou para o ambiente digital. Hoje, o brasileiro combate abusos, corrupção e imoralidades pelas redes sociais. Contudo, embora haja intensidade, falta organização. O barulho é grande, mas o efeito político é pequeno.
Além disso, o ativismo virtual fragmenta a sociedade. Cada grupo fala para si mesmo, enquanto o poder real continua operando nos bastidores. Assim, o sistema agradece. Quanto mais a população se dispersa, menos pressão efetiva sofre quem governa.
A polarização que não muda nada
Mesmo com a chamada polarização ideológica, o País segue parado. A direita acusa a esquerda. A esquerda acusa a direita. Entretanto, o modelo de poder continua o mesmo. Mudam os discursos, mas não mudam os interesses.
Por outro lado, os problemas estruturais seguem crescendo. A dívida pública brasileira já ultrapassa 75% do PIB. O déficit fiscal voltou ao centro do debate. O governo gasta mais do que arrecada e empurra a conta para o futuro. Consequentemente, os juros permanecem elevados, o crédito some e a economia real sufoca.
O emprego que virou sobrevivência
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho entrou em um estágio de precarização silenciosa. Segundo o IBGE, mais de 39% dos trabalhadores brasileiros vivem na informalidade. Isso significa milhões de pessoas sem carteira assinada, sem previdência e sem qualquer proteção social.
Oficialmente, o país fala em pleno emprego. Na prática, porém, o que existe é sobrevivência. O brasileiro não trabalha para prosperar. Trabalha apenas para não afundar.
O colapso do comércio nas cidades
Enquanto isso, as pequenas e médias cidades vivem um drama visível. O comércio varejista está morrendo. Lojas fecham, ruas esvaziam e empregos desaparecem. O consumo migra para grandes plataformas digitais, enquanto o empresário local é esmagado por impostos, burocracia e falta de crédito.
Como resultado, municípios inteiros entram em processo de desertificação econômica. Sem lojas, sem renda e sem perspectiva, essas cidades passam a depender cada vez mais de repasses públicos.
A apatia como maior risco
Essa combinação de dívida, informalidade e colapso comercial gera algo ainda mais perigoso que a recessão. Ela produz apatia. O cidadão deixa de acreditar. Não confia em políticos, não confia em partidos e, cada vez mais, também não confia nas instituições.
Assim, a democracia começa a se desgastar de dentro para fora. Ela não morre apenas com tanques nas ruas. Ela também morre quando as pessoas concluem que sua voz não serve para nada.
Um país cansado e sem horizonte
O Brasil de hoje é um país cansado, endividado e sem horizonte claro. A indignação virou frustração. A participação virou resignação. Enquanto isso, a engrenagem do poder segue firme, protegida e confortável.
Por fim, a pergunta que permanece é simples e brutal. Até quando o brasileiro aceitará viver nessa areia movediça sem exigir uma mudança real? Porque, enquanto a sociedade grita apenas no mundo virtual, o sistema continua funcionando muito bem no mundo real.
